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Por trás das cortinas do golpe – O futuro da Globo


(Foto: Adriano Machado)
Por Bajonas Teixeira de Brito Junior, editor de política do Cafezinho
27/08/2016

Pois é. A Globo se tornou grande demais. Já era a segunda maior rede comercial do mundo e o segundo maior complexo televisivo da América Latina, agora passa a ser também a maior força política do país. A emissora, como ninguém ignora, tem sido apontada como agente decisivo dentro do consórcio do golpe.

O problema é que um princípio que rege a história brasileira, e do qual exemplos não faltam,  reza que “quanto maior o homem, maior o tombo”. São tantos os casos, e não só de homens mas também de empresas, de instituições e partidos, que vale analisar o assunto com atenção.

Observando a home da Globo por esses dias, quando o julgamento do impeachment de Dilma Rousseff entra na reta final no Senado, constata-se que seu ardor messiânico não arrefeceu em nada. Como sempre, lá estão as manchetes carregadas, forçadas nas tintas e nas dimensões, sempre negativas para Lula e para a presidenta.  Nem nesse momento,  da etapa final do julgamento no Senado, a empresa achou por bem adotar um tom mais sóbrio e simular alguma neutralidade. Ao contrário. A manchete que ontem ficou seis horas na home do G1, em fonte com dimensões espantosas, era sobre o indiciamento de Lula pela PF. (Pode ser vista aqui)

A imagem que escolhemos para ilustrar esse artigo (imagem da home G1, dia 12 de maio, às 7.34hs), uma dentre inúmeras de um arquivo de cinco mil imagens de homes e matérias que documentam a mídia nos últimos meses, é do início da manhã do dia em que o Senado aceitou o afastamento de Dilma para a continuidade do processo do impeachment. O enorme espaço ocupado pela imagem, cobrindo toda a faixa superior da home do portal naquela dia, e a sensação de cerco e opressão registrados nela, evocam o novo patamar de poder da Globo, deixando claro que o assédio ao Palácio do Planalto, o cerco, foi obra sua.

As intenções da Globo parecem ir muito além de uma mudança de governo, por mais traumática que esta tenha sido para a democracia, e para os 54 milhões de eleitores de Dilma. A empresa de comunicação, pelo que se constata em diversas intervenções nos últimos três meses, ou seja, desde o início da presidência interina de Temer, deixa poucas dúvidas sobre suas pretensões de comandar a política brasileira.

Alguns de seus posicionamentos são de quem pretende formular e conduzir as políticas decisivas para o país, sem se importar se essa condução contrariará os interesses das corporações mais bem situadas no funcionalismo público. Um exemplo importante foi o que veio no editorial da revista Época, que chamava de esquizofrênica a aprovação, em meados de maio, do regime de urgência na Câmara para votar os projetos de lei de aumento do Judiciário e do STF.

A Globo identifica a si mesma como genuína representante dos interesses da nação enquanto, do outro lado, põe as três instâncias do Estado como instituições esquizofrênicas. Estão completamente enlouquecidas pelo delírio salarial:

“A esquizofrenia política brasileira tem uma série de sintomas patológicos. Há uma completa falta de governança entre os Três Poderes – Executivo, Judiciário e Legislativo – no enfrentamento da crise. É um sinal de alheamento da gravidade da situação do país que a cúpula do Judiciário patrocine um projeto de reajuste  de 16,38% dos próprios vencimentos. O STF, que assume cada vez maior protagonismo na cena política, deveria assumir também a vanguarda da austeridade.”

Não só, portanto, a Globo se põe acima da instância executiva máxima do país, ocupada então pelo interino Michel Temer, mas também sobre os dois outros pilares do estado, igualmente tomados pela esquizofrenia.

Temer, o que nesse caso não surpreendeu ninguém, tomou a direção contrária aos ditames da Globo, e aprovou o aumento, até ampliando sua abrangência para outras categorias do serviço público. Esse alargamento se impôs para camuflar a intenção óbvia, de não parecer ingrato e de se precaver contra a fúria insana do STF, que já havia se abatido sobre Dilma. Não podendo dar um aumento exclusivo para o Judiciário e o STF, o que pegaria muito mal, teve que mascarar isso com uma ampliação dos beneficiados.

Matéria no UOL no dia da aprovação dos projetos (02 de junho) estimava o impacto dos aumentos sobre as contas públicas em 58 bilhões.

A Globo reagiu posteriormente com uma chocante cobertura da première da primeira-dama Marcela nas cerimonias públicas, ilustrada por uma imagem para além de qualquer dúvida. De certo, o recado foi bem entendido no Jaburu.  E a humilhação não será facilmente esquecida.

A Globo, por sua vez, apesar de todo seu poder, ou melhor, justamente por todo poder que acumulou como a força mais decisiva para o desenlace do golpe, não ignora que corre grande risco. Sim, por paradoxal que seja, no Brasil, um país meio taoista, todo extremo anuncia a chegada de uma brusca virada. Exemplos?

Os exemplos são inúmeros, dos mais óbvios aos mais modestos. Dos modestos, lembremos de apenas um, Demóstenes Torres, que se ergueu ao posto de senador modelo, diversas vezes premiado, e depois ruiu lamentavelmente como um ídolo de pés de barro. E ainda deste caso trágico, mas de todo previsível, que se pode contemplar na imagem do todo poderoso José Dirceu, que era apontado como o Maquiavel brasileiro, e que também foi tragado por sua insigne grandeza. Em escala ainda maior, observe-se o próprio Lula que chegou a uma altura enorme, e dessa altura colocou Dilma na cadeira presidencial.

A perseguição a Lula, e a vontade de reduzir a nada sua imagem, faz parte dos arcanos mais íntimos da alma brasileira, o que talvez ajude a explicar por que alguns milhões de adeptos, até ontem, permaneceram em casa assistindo passivos à cena da caçada ao líder. O prazer de ver o circo pegar fogo é o que aqui entretém os palhaços.

A lógica que orquestra a loucura brasileira é a do antigo ditado português – “Quanto maior o homem, maior o tombo”. Esse provavelmente será em breve o caso de Gilmar Mendes, e quem sabe até o de Sérgio Moro, como já foi o de tantos outros.

Agora que acumulou tanta musculatura, ao ponto de tornar-se, de fato, a força mais temível, e isso não apenas por um, mas por todos, a Globo ingressou com as próprias pernas em uma zona de grande risco. Agora, seja no velho espírito de horda primordial, daquele tipo freudiano que assassina o pai para apaziguar um temor coletivo, ou, mais próximo do que temos visto, no estilo máfia, que liquida o chefão, porque prefere conviver com várias famílias, do que ter que se subordinar a uma só, não será surpresa se a Globo for a vítima da vez.

Uma vítima imolada em sacrifício, para que os demais possam, em torno do seu cadáver, festejar a renovação da identidade grupal. Sem falar na partilha da herança. Como repetimos desde o dia 06 de março, dentro de um golpe há sempre muitos outros golpes ansiando por ver a luz do dia.

Temer deve ter medo da Globo. Muito medo. E não é o único. O temor aumenta na medida exata da gratidão que todos sentem pelos serviços prestados. Mas, como Stalin ensinou já faz um bom tempo, a gratidão é uma virtude canina. E, se pode acrescentar, os caninos são sempre cínicos.

Não sabemos o fim dessa história. Mas uma coisa é certa: a Globo se tornou grande demais.

Bajonas Teixeira de Brito Júnior – doutor em filosofia, UFRJ, autor dos livros Lógica do disparate, Método e delírio e Lógica dos fantasmas, e professor do departamento de comunicação social da UFES.

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