São Gonçalo do Amarante - Ceará - Brasil - quarta-feira 16 de agosto de 2017 - Ano: IX - Edição: 3.219 - Visualizações: 17.954.957 - Postagens: 31.406

A qual deles você confiaria o troco da feira para fazer o seu jogo do bicho?


Se por temor, prevenção ou desconfiança, você não escolhesse um deles para fazer a sua aposta, você provavelmente não ganharia no bicho, mas pelo menos não ficaria sem o troco


Por Bajonas Teixeira, colunista de política do Cafezinho | 14/09/2016

Como se sabe, nas grandes cidades brasileiras, mas também nos mais remotos vilarejos do interior, o jogo do bicho é o ilícito preferido de nove em cada dez brasileiros. Na política, as privatizações e outros negócios de depredação do capital público, fruto do esforço de gerações de trabalhadores é o caminho,  escolhido por 11 entre cada 10 políticos experientes, para a venda de facilidades e o recebimento de graúdos agrados.

Há uma vasta literatura sobre o assunto e, infelizmente para o Brasil, parte substancial dessa literatura versa sobre as privatizações ocorridas aqui durante o governo de FHC nos anos 90. Um sólido retrato dos saques promovidos nesse período encontra-se em A privataria tucana, um best seller bem conhecido escrito por Amaury Ribeiro Jr..

De lá para cá, isto é, do período das orgias de privatizações até os nossos malfadados dias, já temos bem uma década e meia de jejum dos aventureiros à serviço do capital, isto é, daqueles que dentro do estado, como agentes públicos, ou fora dele, como lobistas e intermediários, preparam e agenciam os fartos banquetes com os bens públicos.

Da primeira vez, em que o Brasil topou com essa modalidade de parasita predador capaz de dizimar uma empresa pública em questão de horas, ignorava-se o que isso poderia significar. Havia na época uma linguagem nova para os brasileiros, sedutora porque ligada ao que, então, aparecia como muito moderno. Tão moderno que era até pós-moderno. Era a época em que os Estados Unidos exportam consensos de Washington e yuppies. O vocabulário da época encantava e siderava um povo ingênuo estendido languidamente às margens do Atlântico Sul.

Globalização, qualidade total, terceirizações, excelência, respeito à diferença, enxugamento da máquina pública, o global e o local, fluxos mundiais, pós-moderno, fim da história, nova ordem mundial, etc. Tudo isso criava uma atmosfera de inebriante novidade. E, como sempre, ávidos por parecer cosmopolitas, os brasileiros aderiam cegamente às seduções que prometiam a superação dos limites econômicos do país.

Bastava enxugar a máquina e adicionar a ela a gestão da qualidade total. O efeito desse banho de pós-modernização econômica, a realidade das promessas de miraculosos efeitos econômicos, foi uma enorme decepção, que se materializou nos níveis baixíssimos de aprovação do governo FHC ao fim do seu segundo mandato.

Hoje o Brasil não pode alegar ingenuidade, nem simular deslumbramento, diante dos novos (velhos) aventureiros que chegam para dilapidar, como uma sórdida praga de gafanhotos, a riqueza pública. Ninguém ignora a que vieram e o que resultará das suas promessas.

No discurso hoje feito por Temer sobre o pacote foi dito por ele que: “Agora, sob o comando do ministério [que ministério?], e também, do secretário executivo do Programa de Parcerias e Investimentos, Moreira Franco, fizeram-se estudos conducentes exatamente a uma abertura extraordinária para a iniciativa privada que vamos cada vez mais dizer, ressaltar, que o poder público não pode fazer tudo, o poder público tem que ter a presença da iniciativa privada.”

Moreira Franco encabeça e coordena. Ele, Moreira, a quem o FHC dizia, segundo longa reportagem da Folha, que não se podia dar cargo que tivesse cofre.

É preciso dizer mais alguma coisa? Alguém duvida de com quem estamos lidando? Se você tem dúvidas, observe com cuidado o sinal feito com os olhos e o sorriso satisfeito que brota dos lábios do ministro Padilha, em cumplicidade com alguém que está fora da cena, quando seu chefe afirma que “fizeram-se estudos conducentes exatamente a uma abertura extraordinária para a iniciativa privada”.

E o que admira é que uma consciência da necessidade de ir às ruas contra essas “privatizações, parcerias, concessões e permissões”, ou seja, contra essa malandragem urdida com os bens públicos, ainda não tenha se cristalizado.


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