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O duplo padrão da Rede Globo na quebra de sigilo de um jornalista da revista Época e no grampo de Dilma


Por Kiko Nogueira | 09/10/2016

A Globo protesta contra a decisão de uma juíza da 12ª Vara Federal de Brasília de pedir a quebra do sigilo telefônico de um colunista da Época.

A revista denuncia “o objetivo da grave suspensão do direito constitucional: tentar descobrir a identidade de uma das fontes do jornalista.” Foi resultado de uma representação do delegado da PF João Quirino Florio.

“Em abril do ano passado, o delegado Quirino foi encarregado de investigar o vazamento à ÉPOCA de um relatório do Conselho de Controle das Atividades Financeiras, o Coaf. Nele, os investigadores do Coaf listavam os brasileiros suspeitos de manter contas secretas na filial suíça do HSBC, no escândalo conhecido como Swissleaks. A investigação do Coaf e o teor do relatório foram revelados por ÉPOCA em fevereiro de 2015, em reportagem que contou com a apuração de Murilo Ramos”, afirma a publicação.

Uma nota conjunta de associações de imprensa aponta que se trata de “gravíssima violação ao direito constitucional do sigilo da fonte e ao livre exercício da profissão de jornalista”.

Sim, é grave e merece todo o repúdio. Mas é o coroamento de uma escalada de abusos, cujo epítome é a Lava Jato, aplaudida e estimulada pelo grupo.

Em março, quando Sérgio Moro vazou para o Jornal Nacional o conteúdo dos famoso grampos do Lula, não houve discussão aprofundada sobre a operação. Nenhum reflexão.

A ligação entre Lula e Dilma foi gravada mais de duas horas depois que Moro havia determinado a suspensão das interceptações, mas isso foi ignorado. Ao levar em conta a gravação fora de prazo e jogá-la ao vento, Moro sabia o que fazia.

A Globo também, ao repercutir. William Bonner e Renata Vasconcellos improvisaram um jogral que entrou para os anais do telejornalismo.

Ninguém fez qualquer ponderação sobre o fato de a Constituição garantir liberdades individuais, inclusive os sigilos telefônico, postal, fiscal e bancário.



Merval Pereira escreveria, subsequentemente, que aquilo revelava “um Lula sexista e autoritário”, “um desqualificado, com um padrão moral rasteiro”. Diego Escosteguy, redator chefe da Época, deu a sentença: “as conversas gravadas entre Lula e seus aliados, incluindo a presidente Dilma, deixam evidente a obstrução de justiça”.

Diante de alguns protestos que ocorreram, a apresentadora Sandra Annenberg leu um comunicado. “A Rede Globo entende o estado de espírito dos militantes e políticos”, recitou Sandra.

No entanto, “a imprensa não produz grampos, não conduz investigações da Justiça e da Polícia”. E agora? Como fica esse argumento de Pôncio Pilatos?

Em entrevista ao DCM na TVT, o professor Aldo Fornazieri, da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, mencionou a necessidade de uma reação contra o autoritarismo judicial no Brasil.

“Tem que haver uma reação das forças democráticas conscientes e organizadas. O meio acadêmico, o meio jornalístico, o meio jurídico, o meio sindical, pessoas que acompanham um pouco melhor toda essa situação têm que criar uma barragem, uma contenção à sucessão de arbitrariedades que vem acontecendo”, falou.

“Quem tem responsabilidade com a democracia tem que lutar contra isso. Tem que denunciar esse movimento de violação  do Estado democrático de direito, que já vinha sendo violado antes do afastamento definitivo da presidenta Dilma.”

A história ensina que monstros não são controlados pela natureza e costumam se voltar contra seus criadores.


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