São Gonçalo do Amarante - Ceará - Brasil - quarta-feira 13 de dezembro de 2017 - Ano: X - Edição: 3.344 - Visualizações: 19.638.129 - Postagens: 32.192

RIBAMAR FONSECA | O Brasil que sairá do pleito municipal

Jornalista e escritor | 1º de outubro de 2016

O mundo acompanha, com invulgar interesse, as eleições municipais deste domingo no Brasil, quando serão escolhidos os novos prefeitos e vereadores de mais de cinco mil municípios. Além de manter para o exterior a aparência de normalidade democrática, a importância do pleito está na formação da base política que servirá de pano de fundo para as eleições presidenciais de 2018. As urnas revelarão, por exemplo, se a Lava-Jato produziu ou não estragos no eleitorado do PT, ao mesmo tempo em que fornecerá uma visão mais nítida do novo equilíbrio de forças políticas. Evidentemente que acontecimentos imprevistos nos dois anos que nos separam do pleito presidencial poderão provocar profundas alterações no quadro que se formará a partir das eleições municipais, mas é certo que a Lava-Jato continuará com sua tarefa política, empenhada em acabar com o Partido dos Trabalhadores e eliminar Lula do cenário político, com o apoio da mídia e o silêncio comprometedor do Supremo.

Na verdade, é possível até que a Operação Lava-Jato, hoje fator de desequilíbrio em todas as áreas da vida nacional, nem consiga sobreviver por muito tempo. Deslumbrado com a fama que conquistou dentro e fora do país e, principalmente, com o poder que enfeixa nas mãos, o juiz Sergio Moro começou a meter os pés pelas mãos, convencido, especialmente depois da decisão do Tribunal Regional Federal que avalizou seus atos, que ninguém terá a ousadia de contrariá-lo. Ocorre que, além de já vir recebendo críticas da imprensa que sempre o apoiou, Moro promete, após o golpe de misericórdia em Lula e no PT, voltar suas atenções para os acusados de corrupção dos outros partidos, de modo a fugir da imagem de perseguidor dos petistas. E como o Congresso está recheado de investigados do PMDB, PSDB e DEM, entre outros, tende a provocar a união de todos eles em torno de um projeto para não apenas estancar, mas acabar com a Lava-Jato. Contarão para isso com o apoio velado do governo Temer, também com a corda no pescoço e ameaçado de não chegar em 2018.

Funcionando como um imenso polvo, com seus tentáculos espalhados por toda parte – Moro é o único juiz de primeira instância que tem jurisdição sobre todo o país – a Operação Lava-Jato, com o pretexto de combater a corrupção vem se imiscuindo na vida de todo mundo e em todos os setores de atividades, provocando a quebra de empresas e o desemprego de milhares de trabalhadores. Com isso perdeu o apoio do povo, que inicialmente aprovava suas ações, e os políticos, além de se sentirem ameaçados, querem parecer sensíveis aos reclamos populares. Conclusão: juntando as duas coisas é possível que os parlamentares, que fazem as leis, de repente decidam votar uma emenda constitucional reduzindo drasticamente os poderes que a Constituição de 88 deu aos juízes e ao Ministério público. Na verdade, já se fala intramuros até na possibilidade de convocação de uma Constituinte, para a realização de profundas modificações em nossa Carta Magna.

Aparentemente, ao decretar sigilo em torno da delação da Odebrecht o juiz Moro, que não é bobo e deve estar informado da movimentação dos parlamentares, pretende ter em mãos as acusações contra eles para usá-las no momento oportuno, pressionando-os para abortar qualquer tentativa de alteração na Constituição que possa retirar poderes do Judiciário. Os parlamentares investigados, por sua vez, também devem estar se preparando para usar o seu poder na hora certa. É um jogo de gato e rato, onde o mais esperto vencerá. Quem perde, afinal, é a Nação, porque a Lava-Jato, que a princípio parecia que iria passar o país a limpo, desviou-se da sua missão, tornando-se um instrumento político das forças contrárias ao governo petista, partidarizando-se e cometendo flagrantes injustiças em desrespeito à Lei. E, também, porque os políticos realmente corruptos, que poderiam ser alijados da vida pública, continuarão pendurados em seus mandatos, alguns inclusive ocupando cargos relevantes no governo.


Paralelamente, as forças que articularam o golpe e colocaram Temer no poder já começam a mostrar seu verdadeiro objetivo: botar no Palácio do Planalto um nome que efetivamente represente as suas aspirações. Temer só chegou lá porque era o vice de Dilma, mas nunca foi o escolhido pelos conspiradores para ocupar a Presidência da República. O seu governo, portanto, terá vida curta, não apenas porque tem sido um desastre mas, sobretudo, porque as forças por trás do golpe querem um nome da sua confiança no Planalto. E como sabem que não conseguirão chegar lá pelo voto direto, pretendem fazê-lo por votação indireta, muito mais fácil, considerando o controle do eleitorado, os congressistas. Por isso a mídia já iniciou discretamente as críticas ao governo Temer e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, um dos conspiradores mais influentes, já se assanha como possível candidato dizendo, inclusive, que Temer não tem liderança. Para que o plano efetivamente dê certo, no entanto, Temer deverá ser cassado somente no final de 2017. O Tribunal Superior Eleitoral, presidido pelo ministro Gilmar Mendes, estaria só esperando o momento certo para aprovar a ação do PSDB que pediu a cassação da chapa Dilma-Temer. O tempo dirá.

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