São Gonçalo do Amarante - Ceará - Brasil - sábado 16 de dezembro de 2017 - Ano: X - Edição: 3.347 - Visualizações: 19.638.129 - Postagens: 32.192

ALEX SOLNIK | Odiai-vos uns aos outros

"A palavra que define mais exatamente o que estou sentindo nesses primeiros dias de 2017 é vergonha. Vergonha do Brasil, vergonha dos brasileiros – com a intensidade que eu jamais experimentei nos mais de 50 anos em que moro aqui. Não me lembro de outra época em que a intolerância esteve tão em alta e a compaixão tão em baixa do que agora", diz o colunista Alex Solnik; "A crise não é só moral, mas intelectual. Somente pessoas irresponsáveis, inconsequentes e burras não enxergam que o que acontece dentro das prisões não é diferente do que acontece fora delas e que o ambiente de violência e de podridão a que os presos são submetidos tornam-nos mais violentos ainda quando voltam ao convívio com os outros", afirma; em 2017, o deputado Major Olímpio (SD-SP) e o ex-secretário de Juventude de Temer, Bruno Júlio, pediram mais chacinas

09 DE JANEIRO DE 2017

A palavra que define mais exatamente o que estou sentindo nesses primeiros dias de 2017 é vergonha.

   Vergonha do Brasil, vergonha dos brasileiros – com a intensidade que eu jamais experimentei nos mais de 50 anos em que moro aqui.

   Não me lembro de outra época em que a intolerância esteve tão em alta e a compaixão tão em baixa do que agora.

   Em 1992 também aconteceu uma chacina pavorosa de presos, em São Paulo, no famigerado presídio do Carandiru. No entanto, a sociedade civil daquela época não reagiu com a desfaçatez, indiferença e o ódio que estamos assistindo hoje. 

   O que aconteceu nesses 25 anos para o país ter sofrido essa degradação tão flagrante do tecido social?

   Não vimos, então, nenhum deputado estimular novas chacinas publicamente, como fez agora um deputado federal chamado Major Olimpio, de São Paulo, expressando com todas as letras e sem nenhum pudor uma intenção assassina que não fica bem para nenhum cidadão, mas se torna mais grave na boca de um servidor público que jurou proteger a constituição e não a denegrir.

   Também é chocante constatar que o prefeito da mais importante e maior cidade do país, que ele mesmo chama de capital do Brasil no mesmo dia em que a chacina era o tema nacional além de não dizer absolutamente nada sobre a tragédia continuou brincando de gari, alheio ao banho de sangue, antecipando como será seu governo de fachada.

   O detalhe perturbador é que tanto o deputado descerebrado quanto o prefeito de São Paulo, quanto as demais autoridades ausentes do episódio e pessoas comuns que comemoraram as mortes se dizem católicos e acreditam em Deus.

   Não entendo, então porque eu, que não acredito em Deus, me comovo, choro e me envergonho com os acontecimentos de Manaus e de Roraima e eles, no mínimo, não estão nem aí. Ou pedem mais sangue.

   A crise não é só moral, mas intelectual. Somente pessoas irresponsáveis, inconsequentes e burras não enxergam que o que acontece dentro das prisões não é diferente do que acontece fora delas e que o ambiente de violência e de podridão a que os presos são submetidos tornam-nos mais violentos ainda quando voltam ao convívio com os outros.

    A diferença entre 1992 e 2017 é que naquela época não havia internet, mas não é racional atribuir a uma ferramenta de trabalho e de entretenimento a responsabilidade pela decadência moral de uma nação.

   No Brasil cristão de hoje a principal mensagem de Jesus Cristo - “amai-vos uns aos outros” - foi transformada em “odiai-vos uns aos outros”.


Alex Solnik é jornalista. Já atuou em publicações como Jornal da Tarde, Istoé, Senhor, Careta, Interview e Manchete. É autor de treze livros, dentre os quais "Porque não deu certo", "O Cofre do Adhemar", "A guerra do apagão" e "O domador de sonhos"

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