São Gonçalo do Amarante - Ceará - Brasil - sábado 21 de outubro de 2017 - Ano: X - Edição: 3.291 - Visualizações: 18.935.765 - Postagens: 32.192

O Itamaraty vira feudo tucano


"A escolha do senador Aloysio Nunes Ferreira como novo ministro das Relações Exteriores humilha o Itamaraty não por se tratar de um político agressivo e intransigente, o que lhe vale a alcunha de 'pitbull tucano'", nem por falta de familiaridade com o tema, mas sim "o rebaixamento da pasta à condição de mercadoria nas barganhas fisiológicas para a sustentação de Temer", afirma Tereza Cruvinel; "Com a nomeação de Nunes Ferreira, Temer faz da pasta um feudo do PSDB, de cujo apoio precisa cada vez mais para se manter no cargo, apesar da derrocada moral de seu governo", diz a jornalista, para quem "a ditadura foi mais sóbria que Temer, colocando no cargo quase sempre diplomatas de carreira"; "A hora do mundo exige cautela e não rompantes. Exige negociação e diplomacia, não truculência e valentia", conclui


Por: TEREZA CRUVINEL

Colunista do 247, Tereza Cruvinel é uma das mais respeitadas jornalistas políticas do País

3 de Março de 2017

A escolha do senador Aloysio Nunes Ferreira como novo ministro das Relações Exteriores humilha o Itamaraty não por se tratar de um político agressivo e intransigente, o que lhe vale a alcunha de “pitbull tucano”. Não lhe falta familiaridade com o tema, depois de ter presidido a Comissão de Relações Exteriores e de ter atuado como embaixador do golpe junto aos Estados Unidos, nos idos de abril. Muito jovem, ele foi também embaixador da luta armada, que hoje renega, na Paris dos exilados brasileiros durante a ditadura. O que humilha o Itamaraty é o rebaixamento da pasta à condição de mercadoria nas barganhas fisiológicas para a sustentação de Temer. Com a nomeação de Nunes Ferreira, Temer faz da pasta um feudo do PSDB, de cujo apoio precisa cada vez mais para se manter no cargo, apesar da derrocada moral de seu governo. A prioridade absoluta de Temer hoje é construir sua própria blindagem, jogando com o apoio do Congresso, da mídia e do Supremo. É nisso que colocará cada vez mais energia, enquanto as prometidas reformas começam a reunir um arco de críticos até mesmo em sua própria base.

Como já escrevi aqui, nem os imperadores nem os presidentes que o Brasil já teve fizeram do Itamaraty um butim de qualquer partido. Houve chanceleres com filiação partidária, como Oswaldo Aranha e Affonso Arinos, para ficar em dois grandes vultos que passaram pela Itamaraty. Mas nunca a Casa de Rio Branco foi transformada em feudo petebista, pessedista ou udenista. A ditadura foi mais sóbria que Temer, colocando no cargo quase sempre diplomatas de carreira. Fernando Henrique foi chanceler e era tucano mas, uma vez presidente, ali não colocou políticos. Teve Celso Lafer e Lampreia. Lula manteve o diplomata Celso Amorim no posto por oito anos, à frente de uma política externa “ativa e altiva” que lhe rendeu a consideração, por um jornalista americano, de “melhor chanceler do mundo”. Dilma só nomeou diplomatas.

Afora isso, agora Temer tem outro chanceler tucano, mas continua não tendo política externa. Serra brigou com os vizinhos, fez críticas açodadas a Trump e desprezou o multilateralismo. Nunes Ferreira não promete nada diferente. Há alguns meses ele integrou uma comitiva de senadores que foi “inspecionar” a observância das liberdades na Venezuela. A comitiva foi cercada por militantes governistas, causando um incidente diplomático.  Ele também desancou Trump antes da eleição, qualificando-o como o que de mais abjeto o Partido Republicano poderia produzir.

A hora do mundo exige cautela e não rompantes. Exige negociação e diplomacia, não truculência e valentia. E, o que é pior para os tucanos, com Trump e com o Brexit, não deixa espaço para a política que Serra tentou executar, e talvez Nunes Ferreira insista em adotar. Veremos.


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