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RENATO ROVAI | Lula sai maior que seus algozes dos depoimentos da Odebrecht

Renato Rovai é editor da Revista Fórum

14 de Abril de 2017

É impressionante como se perdeu completamente o limite da mínima objetividade jornalística na mídia tradicional. E como, sem a menor cerimônia, conteúdos são deturpados e falsas versões são espalhadas mesmo quando se é possível checar a informação.

Os depoimentos dos executivos da Odebrecht, entre eles de Emílio e Marcelo, pai e filho que eram os verdadeiros responsáveis pela empresa, estão abertos na rede e podem ser assistidos na íntegra por qualquer ser humano desprovido de superpoderes, como você leitor e até como este insignificante blogueiro.

Eles não são mais exclusividade da República de Curitiba e nem de excelências como Janot ou Facchin.

Ou seja, dá pra ver se o que lá está dito corresponde às manchetes de jornais e aos destaques nos noticiários televisivos.

Há inúmeras contradições, mas vou chamar a atenção apenas a de um desses vídeos onde Emílio Odebrechet comenta o apoio que a empresa deu à liga de futebol americano criada por Luís Cláudio Lula da Silva.

Emílio diz neste depoimento que ele havia localizado um problema de relacionamento entre seu filho Marcelo Odebrecht e a então presidente Dilma Rousseff. E que ao encontrar Lula, provocou-o dizendo que ele precisava que o ex-presidente (vejam bem, ex-presidente) o ajudasse para resolver aquele problema. E que neste momento falou que se orientasse Marcelo como melhorar sua relação com Dilma, ele se disporia a orientar seu filho, Luís Cláudio, a realizar seus projetos. Já que o empreiteiro sabia que Luís Cláudio estava tentando organizar a liga no Brasil.

Emílio segue o depoimento dizendo que teve, ao todo, umas seis horas de conversa com o filho mais novo de Lula e que nesses papos lhe deu várias orientações. E que ao final, chamou seu executivo, Alexandrino Alencar, para que ajudasse o garoto. E isso resultou num patrocínio, segundo Emílio, de 50 a 60 mil reais mês para a Liga que se formava.

O patriarca da família Odebrecht ainda elogiou Luís Cláudio, disse que apesar de alguma ingenuidade, o garoto tinha um bom produto e habilidade para o negócio.

Não é preciso ser bidu para saber que um dia uma Liga de futebol americano vai fazer sucesso no Brasil. Basta acompanhar o twitter, facebook e outras redes quando acontecem os jogos finais do esporte nos EUA. Nesses dias, o assunto já fica entre os trendtopics no Brasil.

Ou seja, não é nem ilegal, nem imoral e nem porra nenhuma de errado a Odebrecht apoiar esta liga, fosse ela do filho do Lula ou do João Doria, que durante toda a sua história de trabalhador já vendeu por valores muito maiores projetos que eram terreno na lua para patrocínios milionários de empresas estatais. Ou alguém de fato acha que as revistas que Doria fazia e que inclusive ele de forma leviana ousou chamar de Fórum, sendo que esta Fórum já circulava no mercado muito antes, vendiam anúncios por quanto? E quantos liam aquelas poucas revistas que encalhavam nas bancas?

Lula não era presidente, seu filho não tinha cargo público, Emílio Odebrechet disse ter apenas pedido a Lula que orientasse seu filho Marcelo na relação com Dilma, qual o crime então?
Não há crime algum. Não há nada contra Lula neste caso, o que não significa que não possa haver em outros.

Mas mesmo no depoimento de Marcelo Odebrecht que a mídia está usando para dizer que o “amigo” teria uma conta de 40 milhões de reais as acusações contra Lula não ficam em pé.

Num primeiro momento Marcelo fala em 35 milhões, minutos depois fala em 40 milhões. Moro parece não ver problema na contradição e não o interpela sobre qual seria o número real. Mas mesmo falando desses números, Marcelo diz não saber se Lula tinha conhecimento daquilo e não fala em nenhum momento que aquele recurso foi reivindicado por Lula.

Ou seja, no exercício do poder Lula não teve conta com a Odebrecht. Coisa estranha, né? Para Lula então era mais fácil roubar no governo Dilma. Jura que é isso que Moro, a mídia e os procuradores querem nos fazer crer com a interpretação que estão fazendo veicular deste depoimento de Marcelo.

Enfim, as gravações dos depoimentos de Emílio, Marcelo e todos os outros executivos da Odebrecht são um episódio histórico para a política no Brasil. É possível ter muito mais claro bastidores da relação nada republicana deste submundo do financiamento eleitoral e do enriquecimento privado a partir da ocupação de cargos públicos. E isso é muito bom porque, entre outras coisas, algumas vestais começam a ficar nuas.

Alckmin, como bom homem de família, por exemplo, teria colocado seu cunhado para operar a propina. Serra, como um cidadão do mundo, fazia suas operações heterodoxas fora do Brasil. E saía candidato a cada dois anos para poder arrecadar mais. Mineirinho não comia quieto, como se percebe agora. Ao contrário, pedia o por fora de tudo que fazia. E até por isso foi o primeiro colocado nessa disputa, é o rei das delações. Temer, Cunha, Henrique Alves, Padilha e outros peemedebistas operavam o que se convencionou a chamar de quadrilha nas conversas de botequim.

Ou seja, amigos, as delações da Odebrecht que tinham por objetivo acabar com Lula, pelo jeito vão lhe diferenciando de seus algozes. Mas no sentido contrário do que Moro e a República de Curitiba esperavam.

Ao final de tudo isso, Lula não vai se tornar um santo. Nem um ingênuo. Mas o fato é que muitos dos que estão sendo flagrados como bandidos são aqueles que urravam contra ele.


Brasil 247

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