São Gonçalo do Amarante - Ceará - Brasil - domingo 20 de agosto de 2017 - Ano: IX - Edição: 3.223 - Visualizações: 17.954.957 - Postagens: 31.406

O powerpoint e a tatuagem


POR FERNANDO BRITO · 13/06/2017

É óbvio que não se vai comparar, do ponto de vista físico, o ato de tatuar a testa de um rapaz drogado que estaria tentando roubar uma bicicleta com o de um procurador da República que exibe,  em rede nacional de televisão, slides  de um powerpoint acusando alguém de ser o “chefe da cleptocracia”.

Mas não há dúvidas de que o objetivo é o mesmo: tomar a si o poder de julgar e o de promover a execração pública de alguém, marcando visualmente sua testa ou o seu nome com o estigma de ladrão com base apenas em suas próprias razões.

Em ambas as situações, não faltam os elogios e aplausos dos fanatizados, dos cheios de ódio, dos festejadores do “escracho”, esta praga que tomou conta da vida brasileira.

Mas há uma diferença essencial: os dois torturadores que recriaram – da versão tatoo – as marcas a ferro quente dos campos de concentração nazistas são dois sujeitos primários, embrutecidos como tanto e, felizmente, cruéis como poucos.

Na outra cena, que o fez sabia perfeitamente, por estudos e profissão, que o ser humano não pode ser vítima de linchamentos, nem físicos, nem  morais.

E o fez, deliberada e meticulosamente, por convicções, aquilo que já seria inadmissível por provas.

Atos assim, como tantos outros feitos pela mídia ou por autoridades públicas com o dever do equilíbrio certamente ajudam os monstrinhos da tatuagem acharem que é normal e bom fazer seu tenebroso powerpoint na testa de alguém.


0 comentários:

[ Deixe-nos seu Comentário ]