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Rocha Loures é Aécio Neves amanhã e Michel Temer depois de amanhã


Por Joaquim de Carvalho - 3 de junho de 2017

A prisão do ex-deputado federal Rodrigo Rocha Loures, o homem que carregava a mala de dinheiro sujo que seria dele e de Michel Temer, motiva a pergunta: e quando será a vez de Aécio Neves e de Michel Temer?

Dois fatos unem Aécio a Loures.

Um é o corruptor – Joesley Batista.

O outro é o governo da república, que ambos, na proporção de poder de cada um, movimentaram ou movimentam.

Joesley deu 60 milhões de reais para Aécio em 2014, para financiar sua campanha e ajudar na compra de aliados.

Em contrapartida, segundo a Procuradoria da República, Aécio Neves “usou o seu mandato para beneficiar diretamente interesses do grupo.”

No pedido de prisão de Aécio, o procurador Rodrigo Janot cita dois favores prestados por Aécio: a liberação de créditos de 12,6 milhões de ICMS da JBS Couros e de créditos de 11,5 milhões de ICMS para uma empresa ligada à Seara, comprada por ele.

Na conversa gravada por Joesley, Aécio prometia mais: a nomeação de diretoria da Vale e a interferência na Polícia Federal para abafar as investigações.

Aécio já poderia ter sido preso, na única hipótese prevista na Constituição para políticos com foro privilegiado: o delito flagrante, pois a ação controlada nada mais é do que o adiamento da prisão para coletar mais provas.

E o Ministério Público coletou mais provas: a mala de dinheiro foi entregue a emissários de Aécio.

E agora o mais grave: o crime continua acontecendo, na medida em que Temer tirou o ministro que Aécio considerou “peba” e colocou outro, que já estuda mudanças na Polícia Federal.

Não era isso que Aécio disse a Joesley que precisava ser feito?

E, ao que parece, está sendo feito.

Tudo diante dos nossos olhos.

E Aécio continua solto.

Recapitulado: Ao pedir dinheiro, Aécio cometeu o crime de corrupção, segundo a Procuradoria da República.

Poderia ter sido preso.

Mas o Ministério Público Federal preferiu reunir mais provas. E conseguiu: documentou a entrega das malas de dinheiro.

Fachin preferiu deixar Aécio solto, e transferiu a responsabilidade para a presidente do Supremo, Carmen Lúcia, que, mediante sorteio, designou Marco Aurélio Melo para decidir sobre a prisão.

O que falta para Aécio ser preso?

Agora Michel Temer: depois do cerco se fechar ao ex-deputado Loures, mesmo antes da prisão, Michel Temer permaneceu tranquilo, informaram assessores do Palácio do Planalto a seus porta-vozes na Globo News, pois, segundo o que dizem, não há o que Loures delatar.

Não?

Fato 1: Foi Loures quem marcou o encontro entre Michel Temer e Joesley Batista no Palácio do Jaburu.

Fato 2: Michel Temer e Joesley combinam que Loures passaria a ser o intermediário dos pleitos da JBS junto ao governo federal.

Fato 3: O emissário da JBS, ao acertar a entrega da mala de 500 mil reais a Loures, diz que a propina é o início de transação que garantiria 500 mil semanais para ele e Michel, durante 25 anos, uma aposentadoria milionária.

Esses três fatos estão relacionados a um único corruptor, Joesley Batista, mas Loures é homem de confiança de Temer há muito mais tempo.

É provável que tenha algumas coisas mais a falar.

Mas será que vai?

Até segunda-feira passada, o advogado de Loures era o criminalista José Luís de Oliveira Lima e, sob orientação dele, o ex-deputado entregou à Polícia Federal a mala com 465 mil reais em dinheiro e depois fez o depósito de mais 35 mil reais.

Parece uma atitude de quem está disposto a colaborar com a Justiça.

O novo advogado, Cézar Roberto Bitencourt, assumiu a causa depois de escrever dois artigos, publicados no site Conjur, em que defende a tese de que, na conversa com Joesley Batista, Temer não cometeu nenhum crime – nem obstrução da justiça muito menos prevaricação – e considerou a ação do Ministério Público Federal de flagrante forjado.

Nos artigos, Bitencourt não levou em consideração que a gravação de Joesley foi feita antes do início da negociação com a Procuradoria da República para a delação premiada – e parece verdade, pois, se tivesse orientação profissional, certamente o áudio da conversa teria melhor qualidade.

Outro ponto que o advogado não levou em consideração: não é crime gravar a própria conversa, seja com o manobrista do restaurante ou com o presidente da república.

O que poderia ser considerado inválido como prova é o flagrante forjado, mas a fita não é o evento principal relacionado à investigação preliminar que fez a Procuradoria da República.

Tenta-se desqualificar a parte para impedir a visão do todo.

No meio jurídico, o artigo foi recebido com desconfiança, já que, por ser procurador de justiça aposentado e professor universitário experiente, ele embarcou muito rapidamente na tese de defesa de Michel Temer.

Fato é que, logo depois da publicação dos artigos, Loures trocou de advogado: saiu Oliveira Lima e entrou Cézar Roberto Bitencourt.

Formalmente, Bitencourt defende o homem que carregava a mala, mas não é descabido suspeitar que, na verdade, ele foi contratado para proteger o homem a quem esta – ou outras malas – se destinaria.

Com ou sem manobra jurídica, o lamaçal está tão exposto que a prisão de Loures hoje parece ser a prévia do que acontecerá – talvez num tempo muito mais curto do que se supõe: Aécio e Temer entrando na carceragem da Polícia Federal.

No final, poderão se perguntar: foi para isso que fizemos o golpe?




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