São Gonçalo do Amarante - Ceará - Brasil - terça-feira 22 de maio de 2018 - Ano: X - Edição: 3.504 - Visualizações: 22.150.328 - Postagens: 33.408

Que esperar de uma Justiça aliada no golpe dos outros dois Poderes da República?



Editor da revista Carta Capital, jornalista Mino Carta diz que "a rejeição pelo STJ do pedido de habeas corpus para o ex-presidente Lula não causa a mais pálida sombra de surpresa"; "Que esperar de uma pretensa Justiça pontual aliada no golpe dos outros dois Poderes da República?", questiona; "É do conhecimento até do mundo mineral que o estado de exceção precipitado pelo impeachment de Dilma Rousseff teve e tem como objetivo central alijar Lula das próximas eleições", comenta


12 DE MARÇO DE 2018

A rejeição pelo STJ do pedido de habeas corpus para o ex-presidente Lula não causa a mais pálida sombra de surpresa. Que esperar de uma pretensa Justiça pontual aliada no golpe dos outros dois Poderes da República? É do conhecimento até do mundo mineral que o estado de exceção precipitado pelo impeachment de Dilma Rousseff teve e tem como objetivo central alijar Lula das próximas eleições.

É a consagração paradoxal da liderança do ex-presidente, reconhecido como entrave fatal à sujeição do País às vontades “das multinacionais, dos setores financeiros e do mercado”, como sentencia Christophe Ventura, do Parti de Gauche, na entrevista a Leneide Duarte-Plon publicada nesta edição.

Perfeita na análise do golpe e de suas consequências, a entrevista chama atenção para alguns pontos decisivos da trama, as características stalinistas do processo contra Lula, por exemplo, ou da condição de gerente “do seu próprio servilismo” a recair inexoravelmente sobre o governo Temer. Há também o entendimento de que o golpe de 2016 é o ensaio de uma nova forma de autoritarismo político em países que não se curvam às exigências neoliberais.

A escalada do capitalismo selvagem não figurou nas previsões de Adam Smith, o grande iluminista da economia, mas tal é a selvageria inaudita da situação em que o Brasil precipita. E tem fundo o abismo que nos engole mais e mais a cada dia?

Várias incógnitas incumbem no momento, e uma delas diz respeito ao destino de Michel Temer, a viver o risco de prisão logo após a perda do mandato e nesta semana alcançado pela decisão do ministro Luís Roberto Barroso de quebrar o sigilo bancário do presidente ilegítimo. Não é que Temer perca de vista a ameaça, mas, por isso mesmo, até onde chegará para livrar-se dela?

A maior incógnita, em todo caso, é representada pelo calendário eleitoral: haverá eleições em outubro próximo? A única certeza é de que, sem Lula, o pleito é pura fraude, é a negação, stalinista, diria Christophe Ventura, da vontade popular.

De fato, a despeito das condenações em primeira e segunda instância, o ex-presidente cresce nas pesquisas. A dar ouvidos a rumores difusos, o Datafolha já disporia dos resultados de mais uma que o jornal preferiria não divulgar por razões óbvias.

Pouco importa, a ascensão de Lula é inevitável, ao sabor da próxima caravana no Sul do País, com visita prevista ao túmulo de Getúlio em São Borja, e da prisão que virá logo em seguida. Quais os recursos do estado de exceção para garantir a sua continuidade e gerenciar até as últimas consequências o seu servilismo?

O cenário das candidaturas no lado golpista é desolador, como sabemos. A levar em conta as pesquisas, seria o capitão Bolsonaro personagem potável para a demanda dos usurpadores? Que pensam dele as multinacionais, o mercado etc. etc.? Neste exato instante, ele responde a Temer, que lhe tirou a bala da boca, ao se candidatar como homem de Deus e do capitalismo. Quem entende do assunto vai se convencer?

Do lado oposto há candidatos de qualidade, sem dúvida, com a chegada de Guilherme Boulos, liderança nova e extremamente promissora, mas todos inviáveis aos olhos do poder ao qual o estado de exceção é vassalo. Haverá também o escolhido de Lula, provavelmente o mais perigoso. E os golpistas, e quem está por trás deles, aceitariam perder o pleito depois da longa e impune caminhada empreendida até o momento?

Não há lógica alguma em uma eleição perdida de saída por quantos tornam o Brasil cobaia do poder neoliberal. Recomenda-se temer (sem trocadilho) o que os ilegítimos estarão dispostos a perpetrar para ampliar o alcance da ilegitimidade.


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