São Gonçalo do Amarante - Ceará - Brasil - domingo 20 de maio de 2018 - Ano: X - Edição: 3.502 - Visualizações: 22.150.328 - Postagens: 33.408

Para Domenico de Masi, prisão de Lula é perigosa em ano eleitoral



Sociólogo conversou com exclusividade à Coluna em Roma


COLUNA DO FRAGA | Mariana Londres, de Roma

Profundo conhecedor do Brasil, o sociológo italiano Domenico de Masi foi considerado exageradamente otimista ao lançar o livro O Futuro Chegou em 2013. A obra analisa 15 tipos de sociedades e coloca o Brasil como um modelo a ser seguido. Os motivos de sermos esse modelo seriam, segundo de Masi, o alto percentual da população jovem, o crescimento do PIB nos últimos trinta anos (até 2013) com redução da desigualdade social, aumento da qualidade de vida e alternância de poder assegurada por eleições democráticas. Além disso, o sociológo ressalta a importância do País ser pacífico.

A Coluna foi até o apartamento de Domenico de Masi, em Roma, atrás da Universidade La Sapienza, onde ele ainda leciona aos 80 anos. Perguntamos o que mudou nesta teoria do sociológo de 2013, quando ainda não tínhamos vivido as últimas turbulênicas econômicas e políticas, para hoje. Para ele, nada mudou de forma significativa. Mas a prisão de Lula durante o processo eleitoral é um fator que o preocupa. "Prender Lula é perigoso, quase infantil", ele diz.

O sociológo se tornou mundialmente famoso com a teoria do Ócio Criativo, que defende que o ócio não pode ser confundido com preguiça, ou 'não fazer nada', mas com a alternância entre trabalho e lazer, para que o trabalho seja algo divertido e portanto, mais produtivo.

Leia abaixo a íntegra da entrevista.

O senhor escreveu O futuro chegou em 2013, um livro otimista sobre o Brasil. Mas na época vivíamos um bom momento após anos de crescimento econômico. Aí veio crise, impeachment, recessão. O que mudou no Brasil de 2013 para agora?

Não mudou nada. Porque esta situação do Brasil é uma situação transitória. O Brasil é um País de grandes oportunidades. Um País muito rico, um País com uma população muito variada e moderna porque é multiétnica: negros, brancos, europeus, asiáticos que são muito bem integrados num País muito pacífico. Que fez apenas uma guerra, contra o Paraguai. Com um caráter muito bom, acolhedor, alegre, com sensualidade. E os elementos de base são esses, não mudam. Ao mudar a situação sócio-política há de se eliminar um pouco de corrupção que existe. Mas um pouco, como na Itália, como em outros países.

Como na Itália tivemos 'Mani Pulite' (Operação Mãos Limpas), no Brasil vocês tiveram a Lava Jato. Depois da Mani Pulite na Itália elegemos o Berlusconi, que é mais corrupto. Espero que no Brasil [não se eleja um corrupto], vai depender dos brasileiros. Veja, os elementos de base são os elementos de otimismo.

Do que trata o seu próximo livro, que está sendo lançado no Brasil?

O livro que ainda será lançado no Brasil fala dos multi problemas da sociedade atual: dos problemas das cidades, do problema do trabalho, do problema do desemprego do problema da estética e do problema da ética.

Na sociedade globalizada, sem estar focado em algum país?

Se houver mais e mais fatores especializados, mas restam multi fatores específicos. No Brasil há uma forte identidade [com o novo livro, apesar de não ser sobre o Brasil]. O Brasil está se americanizando, mas menos do que a Itália.

Eleições no Brasil: Como o senhor vê a polarização esquerda, direita, com tensão social?

Muito tensão social, não pouca. Não vou ao Brasil há seis meses, e com isso não sei exatamente qual é a situação psicológica atual. Mas na Europa, Lula é um símbolo. Nos Estados Unidos, Lula é um símbolo e na Ásia Lula é um símbolo. E eu creio que se está arriscando muito, como se diz na Itália, com a prisão de Lula.

Terem prendido Lula é perigoso, quase infantil. Porque cerca de 30% dos brasileiros dizem votar pelo Lula. E o segundo que está atrás do Lula [nas pesquisas de opinião] está muito atrás dele. Então o Lula é um líder que está na prisão. E isso é uma anomalia. Eu creio, e por isso é um elemento perigoso. [Que pode] criar uma guerra civil e [aumentar] a força dos militares. Isso é muito perigoso.

Como o senhor vê o Brasil após a Lava Jato?

No Brasil há quatro problemas: o problema da violência, o problema do analfabetismo, o problema da corrupção, o da distância grande entre ricos e pobres. Com esses quatro problemas se tem um resultado: o aumento da violência. Fernando Henrique havia modificado muito, melhorado a economia brasileira. Lula havia dividido a riqueza de forma mais igualitária, mas há o problema da corrupção. Mas eu creio que a corrupção é um elemento permanente na vida brasileiro. Como é um elemento permanente da vida italiano. Mas nós depois da 'Mani Pulite' elegemos Berlusconi.

Eu acredito que no Brasil, após a Lava Jato haverá uma bela democracia. Espero. E no Brasil há todos os elementos para uma visão otimista do próprio futuro. Porque há a riqueza e a propensão à paz, uma multiplicidade de etnias que vivem de forma pacífica. Elementos para mais progresso estão todos aí. Esses são os motivos pra estar otimista com o Brasil.


Colaboração de Alberto Teixeira

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