MAURO LOPES | Quebra a seleção sequestrada pelo Itaú e Globo



Mauro Lopes | Jornalista e editor do 247 e do blog Caminho pra casa

6 de Julho de 2018

A seleção brasileira sempre foi apropriada e assumida pelo povo. Nesta Copa, entretanto, foi sequestrada pelo Itaú, um dos grandes patrocinadores do golpe de 2016, e pela Globo, a grande agente de propaganda da derrocada da democracia no país. A seleção não perdeu para a Bélgica. Quebrou -como acontece com as empresas.

O Itaú das famílias Setúbal e Moreira Salles é patrocinador da seleção e da transmissão da Globo -e recebeu a chave do cofre forte do país, o Banco Central, como prêmio pelo golpe. A Globo da família Martinho comporta-se como se fosse proprietária do time e do país, como o faz, no caso do país, desde que investiu furiosamente contra Getúlio Vargas, nos anos 1950, depois contra João Goulart e, agora, contra Dilma-Lula.

É verdade que a cada quatro anos a dupla Itaú-Globo tenta roubar para si a seleção, já há algumas Copas. Desta vez houve algo mais.

O Itaú patrocina a seleção; patrocina a transmissão da Globo; transformou um dos dois símbolos do time, o técnico Tite, em seu garoto propaganda; o segundo, Neymar, foi adquirido pelo McDonald's, que é patrocinador do evento Copa do Mundo. A Globo tenta tornar a Copa num símbolo da "arrancada" do país do golpe contra o país das conquistas populares dos governos do PT.

O arranjo que sufocou o time tem a cara do golpe. Pós-verdade, truculência contra os que discordam, encenações, enganação. O que vale é o poder da grana.

Era preciso seguir adiante na Copa, é preciso seguir adiante no golpe para que os interesses dos verdadeiros donos sejam garantidos. Sim, porque Tite, Neymar ou Temer não são os donos, mesmo que tenham se tornado milionários e vendido suas almas por isso. Os donos de verdade não são milionários; são bilionários. E almejam mais que a frota de carros, os helicópteros ou o avião particular. Não são jogadores, técnicos ou políticos. São os banqueiros, os donos das mídias, os donos do capital. Querem o poder, o controle, o domínio do sistema, a submissão de todos, para sempre.

Tudo se tornou armação, empulhação. Como a cena patética de Ronaldo, ex-Fenômeno, na condição de comentarista da Globo, criticando Firmino depois do jogador ter feito o segundo gol na partida contra o Mèxico ("foi sorte"). O motivo: o atacante não faz parte do "plantel" de sua empresa de marketing esportivo -Gabriel Jesus sim, é do "plantel", e Ronaldo está aí para defender os investimentos da firma.

Tite, cantado em prosa e verso como um gênio, contratado a peso de ouro por empresas para palestras "motivacionais", soltou uma pérola emblemática de todo o arranjo. Em entrevista coletiva na véspera do jogo com a Sérvia, ao explicar as opções de seu time, saiu-se com essa: "A matilha precisa do lobo, e o lobo precisa da matilha. O conjunto de lobos não é matilha, é alcateia". Isso mesmo, uma bobagem incompreensível.
Mas a imagem não é de todo tresloucada, porque é um amontoado de lobos, uma alcateia a assaltar tudo para si e derrotar os demais, como homens lobos de homens. Não importa haver regras, não importa a lei. Importa vencer. ganhar, derrotar. Como Neymar demonstrou e sintetizou, como excelente jogador de futebol e um péssimo esportista.

Neymar faz jogadas fantásticas -esqueceu de fazer isso hoje-, mas rola pelo chão como um canastrão de novelas mexicanas. Dribla os adversários de maneira estonteante, mas agride-os com violência. Xinga os jogadores de seu próprio time, como fez com Thiago Silva no jogo contra a Costa Rica, depois de o capitão da seleção no jogo ter obedecido o mais básico fair-play do futebol, que é devolver a bola ao time adversário quando o jogo é interrompido pelo juiz. É o vale-tudo, defendido no Brasil (espantosamente até por pessoas de esquerda), mas que recebe condenações generalizadas em todo o mundo.

O espírito da seleção foi representado, como não podia deixar, pelo hino com que o Itaú inundou os ouvidos de brasileiros e brasileiras. Uma mistificação, uma versão pós-moderna do "Eu te amo, meu Brasil" da ditadura militar.

O mote do hino é "Eu vejo um Brasil só". O país está dividido de alto abaixo e foi assim dividido por uma decisão das elites que desfecharam uma campanha sem precedentes na história, ainda mais abrangente e radical do que as desfechadas por eles contra Getúlio e Jango. Derrubaram uma presidente, como levaram Vargas ao suicídio e removeram João Goulart. O patrimônio nacional está sendo vendido, os bancos e os rentistas têm o comando e são os beneficiários da vida econômica nacional, os direitos dos pobres estão sendo trucidados. Mas, segundo o Itaú e a Globo, "Eu vejo um Brasil só".

O maior líder da história política nacional está aprisionado. Metade do eleitorado tem reiterado que irá levá-lo novamente ao poder, enquanto os donos do Itaú, da Globo e seus comparsas tramam para que ele seja alijado do pleito. Mas "Eu vejo um Brasil só".

A Globo e o Itaú roubaram um dos maiores símbolos nacionais, a camisa amarela, tornando-a veste dos ricos espertos e da classe média atemorizada que foi à Avenida Paulista para sufocar a democracia. Mas "Eu vejo um Brasil só".

A falência do time sequestrado pelo Itaú é a derrota do país sequestrado pelo golpe e com seu grande líder, Lula, transformado em preso político.

A derrota de um país amargurado, humilhado pelos que o sequestraram.

Brasil 247

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