ALDO FORNAZIERI | O quadro de candidatos na conjuntura confusa



Aldo Fornazieri é Cientista político e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política (FESPSP)

7 de Agosto de 2018 

O quadro de candidaturas à sucessão presidencial se fechou no final de semana imerso numa densa neblina de incertezas acerca de seu desfecho. Grosso modo, pode-se dizer que existem três vértices: 1) à direita, Bolsonaro e Alckmin; 2) ao centro, Marina Silva, Álvaro Dias e Henrique Meirelles, mais Amoedo; 3) à esquerda, Lula, Ciro Gomes e Guilherme Boulos. Claro, existem mais alguns candidatos. Dentre os citados aqui, os que parecem estar no jogo são Lula, Alckmin, Bolsonaro, Marina e Ciro. Álvaro Dias tem alguma chance remota de surgir como azarão. Meirelles é o candidato do governo Temer. Alckmin é o candidato do sistema, do establishment, do mercado, dos bancos, das elites e da estrutura de poder que articulou o golpe contra Dilma. Bolsonaro é o candidato do grupos neofascistas e de uma massa desencantada, disforme e dispersa, portadora de uma mentalidade radicalizada que julga ser necessário o uso da força para resolver os problemas do Brasil.

O principal adversário de Alckmin, no primeiro turno, será Bolsonaro. O tucano age para esvaziar a sua candidatura. Por isso, capturou a senadora direitista e fascistóide do Rio Grande do Sul como candidata a vice. Ela fazia parte de uma coligação pró Bolsonaro no estado. Alckmin e Bolsonaro não irão juntos para o segundo turno. O mais provável é que o capitão seja desidratado e destruído pela mídia engajada na candidatura do sistema. Nos demais itens que contam em campanhas eleitorais, o tucano leva uma vantagem enorme: estrutura de campanha, apoio nos estados, tempo de TV e rádio, apoio econômico etc. Na área da segurança pública, tema caro a Bolsonaro, Alckmin tem números invejáveis para se contrapor às veleidades do ex-militar. Assim, mesmo com o risco de indicar uma tendência, no campo da direita, esta aponta para uma passagem de Alckmin para o segundo turno.

No campo da esquerda, se Lula estiver na urna, a fatura estará decidida. Ao contrário do que dizem várias análises, é improvável que vença no primeiro turno. O jogo será brutal. Mas, tudo indica que a candidatura Lula será ceifada pelo TSE ou pelo STF. É preciso entender que hoje o centro operacional do golpe está o Judiciário, que vem indicando sinalizações ferozes de que agirá para proteger o sistema e seu candidato. A jurisprudência indica que Lula tem o direito de ser candidato, mesmo com a inconstitucional lei da Ficha Limpa, sancionada pelo ex-presidente e estimulada pelo PT. Mas o Judiciário já rasgou a Constituição, pisoteou as leis e jogou a jurisprudência no lodo.

Sem Lula, o jogo ficaria mais complicado. Provavelmente, Lula seria substituído por Haddad, indicado a vice, que é pouco conhecido nacionalmente. O período da campanha é curto e o tempo de TV do PT não é elástico. Na estratégia do PT conta-se muito com a tese de transferência de voto de Lula para o seu substituto. Não é simples. Mais do que grande eleitores, o que mais define a chamada transferência de voto são as condições conjunturais. Ela funciona melhor quando um governante bem avaliado está saindo do governo e apóia um apadrinhado. Foi assim que funcionou com Dilma em 2010.

Já, Haddad, em 2012, na eleição para a prefeitura de São Paulo, não foi um poste eleito por Lula. Grosso modo, existem dois tipos de conjunturas eleitorais: a conjuntura da conservação e a conjuntura de mudança. Como regra, nas conjunturas de conservação o governante se reelege ou elege o sucessor ungido por ele. O eleitorado quer continuidade. Nas conjunturas de mudança, o eleitorado tende a escolher aquele candidato que melhor encarna a ideia de mudança. Haddad, fundamentalmente, se elegeu prefeito porque expressou melhor a aspiração de mudança do eleitorado paulistano.

A conjuntura atual é confusa. O atual quadro de intenções de voto é frágil, com grande número de indecisos. Se a campanha, que será acompanhada por alto grau de descrença, não for capaz de produzir forte polarização entre dois candidatos, poderá ocorrer uma situação de empate técnico entre três ou quatro candidatos na reta final do primeiro turno.

Há que se acrescentar ainda o seguinte: se Lula for retirado da disputa pela consumação do golpe, o mais provável é que permaneça preso. Assim, não estará junto com o substituto nas ruas para imantá-lo com seu poder magnético, fator que enfraquece a transferência. É improvável também que o deixem gravar propaganda de rádio e TV. O candidato do PT teria pouco tempo para afirmar a sua liderança e para construir-se como personalidade política nacional durante a campanha. Isto teria que ter sido feito com antecedência e este foi o ponto falho na acertada estratégia do PT de manter a candidatura Lula.

Se a candidatura Lula for imolada no altar de Adikia, Deusa da Injustiça, o Brasil será recoberto com as trevas de um temor terrificante de acontecimentos sombrios. O voto de Lula tenderá a se dispersar, distribuindo-se, principalmente, entre o candidato do PT, Ciro e Marina. O fato é que a esquerda está pulverizada e enfrentará um bloco forte da direita aglutinado em torno de Alckmin. Ciro terá alguma chance de passar para o segundo turno se o substituto de Lula não decolar e, Maria, se Alckmin não se viabilizar.

A tática adotada pelo PT, de isolar Ciro Gomes, poderá trazer importantes prejuízos ao campo progressista e ao próprio partido. A militância de base e a máquina do PSB não ficarão neutros na campanha: se distribuirão em apoio ao PT, a Ciro e a Alckmin. O PT não ganhou praticamente nada além do que já tinha do PSB e cortou a cabeça de Marília Arraes em Pernambuco, desmotivando a militância e a juventude, num momento em que o Brasil e o próprio PT precisam desesperadamente de lideranças jovens. A retirada da candidatura do PSB em Minas Gerais, se ocorrer, nada acrescenta ao PT e poderá até abrir brechas para que os tucanos vençam no primeiro turno.

Se o PT quiser ter alguma chance, remota, de ver o nome de Lula na urna eletrônica precisa agir depressa e não só com uma equipe de advogados. Precisa agir nas ruas, nos mercados públicos, nos estádios de futebol, onde houver aglomerações populares. Só haverá alguma chance de Lula permanecer candidato se os juízes dos tribunais superiores forem intimidados pelo clamor popular. Sim, intimidados, porque este é o único jogo que eles entendem na sua sanha persecutória, no seu papel de pretorianos do sistema injusto e cruel, instalado no Brasil. Em política, mesmo no regime democrático, quem não se fizer respeitado e temido, terá que agir intimidado.

E se a direção do PT não agir para fazer o Brasil tremer por um clamor popular pela candidatura Lula confirmará que é uma direção de pusilânimes, de carpideiras que lamentam a tragédia de Lula, mas sempre pronta a agir com realismo oportunista para preservar os seus interesses e o seu poder. Mostrará que o discurso de defesa de Lula não passa de um faz de conta, assim como foi com outros líderes petistas queimados na fogueira da história.

Quanto aos juízes dos tribunais superiores, eles parecem ter se tornado amantes da Disnomia, pois, além da desordem social, querem que o Brasil se afunde no abismo da discórdia política, cuja consequência é só uma: a violência política generalizada. Os juízes serão responsáveis por agravar a ilegitimidade das instituições e do futuro governo se impedirem a candidatura Lula. Neste caso estarão agindo para dar uma vitória a candidatos da direita, mas cobrirão o futuro governo de ilegitimidade.

Um governo ilegítimo não trará prosperidade econômica, pois governará sob a espada da exasperação dos conflitos e da contestação. Um governo ilegítimo não trará a paz social que nunca houve. Um governo ilegítimo será a fagulha da grande fogueira de ódios e desavenças nos próximos anos. O povo está emitindo sinais de exaustão, de impaciência, acerca de sua condição trágica. Uma nova geração de líderes está nascendo. Líderes pouco dispostos a aceitar a brutalidade que as elites, o Judiciário, o Estado e o sistema perpetram contra o povo. A situação está chegando num ponto em que a indignação está deixando de ser calada e passiva. A crueldade contra o povo e suas misérias exigem que a indignação se transforme em fúria da mudança.


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