EMIR SADER | Os difíceis dilemas da direita brasileira



"Depois de arriscar numa aventureira como o golpe, a direita pode sofrer a pior derrota da sua história, porque deve sair desmoralizada, dividida, com seus lideres tradicionais – FHC, Serra, Aécio, Alckmin – totalmente desgastados e com sua vida política terminada. Pode manter alguns governos de estado, mas perderá presença nacional, com bancada parlamentar diminuída e menos expressiva que antes. Se ficar reduzida à liderança de alguém de extrema direita, perde sua capacidade histórica de representar amplos setores da classe média", escreve o sociólogo Emir Sader


Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

22 de Agosto de 2018

A direita brasileira, derrotada quatro vezes nas urnas, adotou o atalho do golpe, como forma de tirar o PT do governo. Teve sucesso, assim como no processo, condenação e prisão do Lula, mesmo sem fundamento legal algum. Conseguiu seu objetivo de tirar o PT do governo e de prender o Lula. Parecia vitoriosa.

Mas a direita paga um preço caro por isso. Em primeiro lugar, se comprometeu com a ruptura da democracia, que ela dizia sempre defender. Em segundo lugar, com um governo que coloca seu programa em prática e produz um desastre profundo no Brasil, fracassa estrepitosamente e chega às eleições sem possibilidades de vitória.

Os dilemas da direita são difíceis. Pode concentrar seus votos no Bolsonaro, se considera que seu objetivo maior é impedir que o PT volve a governar o Brasil, não importando, de novo, as vias para faze-lo. Corre o risco de nem assim conseguir triunfar e de ver os nomes dos partidos e lideres da direita envolvidos com as espantosas declarações do Bolsonaro.

A alternativa é tentar concentrar forças no Alckmin, acreditando que a quantidade de partidos que o apoiam e o correspondente tempo de televisão, possam alavancar essa candidatura. É um caminho seguro de derrota. Na própria região sudeste, em que Lula tem 28% de apoio, conforme o Ibope, Alckmin tem apenas 9%. Na região sul, enquanto Lula tem 27%, Alckmin conta com apenas 4%. Para não falar do nordeste em que Lula tem 60% de apoio e Alckmin apenas 2%.

O objetivo menor da direita é chegar ao segundo turno, não ficando, demoralizadamente, fora dele e, pior ainda, tendo que optar por votar no candidato do PT ou no Bolsonaro.

O desespero de FHC se refere a isso. Realista, ele se dá conta que Alckmin não tem nenhuma chance de ganhar e, talvez, fique mesmo fora do segundo turno. Já prepara o clima para eventualmente apoiar o candidato do PT, para não ficar identificado com as posições do Bolsonaro, como instrumento ultimo para impedir aquilo pelo que FHC e os tucanos sempre lutaram, por qualquer meio – a retomada governo do PT.

Entre a direita tradicional– enfraquecida – e a extrema direita – exacerbada -, a elite oligárquica brasileira se sente espremida. Já conta, de certa maneira, com a derrota, e apela para sua campanha das consequências desastrosas – para ela – da reversão do modelo econômico neoliberal e do processo de (contra) reformas que o governo Temer colocou em prática, fantasmas como da Turquia em pouca efetividade, diante do desastre provocado pelo governo Temer.

Ao contrário do que dizem as vozes da velha esquerda do século XX, a direita hoje está mais dividida que a esquerda. A esquerda contra com o favoritismo do Lula ou sua capacidade de influência para eleger um candidato do PT, caso ele não possa concorrer.

A direita, ao contrário do que se costuma dizer, está dividida. Não foi capaz de conseguir um nome fora da política tradicional, que pudesse capitalizar a rejeição da política. Não foi capaz de unificar grande parte das suas forcas em torno de um candidato. Quem melhor a representaria, Alckmin, já fracassou como candidato. No máximo aspira ao difícil desafio de superar a Bolsonaro e chegar ao segundo turno, mas nem disso parece capaz.

Um candidato de ultra direita como o Bolsonaro demonstra que essa forca veio para ficar na politica brasileira, apoiada num setor radicalizado da classe media. Mas embora representa um setor significativo nas pesquisas, não consegue unificar a direita em torno de si e, caso chegue ao segundo turno, não deve contar com o contingente de votos de todos os candidatos da direita.

Depois de arriscar numa aventureira como o golpe, a direita pode sofrer a pior derrota da sua história, porque deve sair desmoralizada, dividida, com seus lideres tradicionais – FHC, Serra, Aécio, Alckmin – totalmente desgastados e com sua vida política terminada. Pode manter alguns governos de estado, mas perderá presença nacional, com bancada parlamentar diminuída e menos expressiva que antes. Se ficar reduzida à liderança de alguém de extrema direita, perde sua capacidade histórica de representar amplos setores da classe média.

Dai que as eleições deste ano sejam decisivas não somente para a esquerda, mas também para a direita. O fortalecimento da liderança do Lula, a capacidade da esquerda de eleger o próximo presidente, será um golpe duro na direita brasileira, na forma como ela existiu até aqui.


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