JOSE CARLOS DE ASSIS | Globo abriu alas para Bolsonaro passar


Reprodução TV Globo

José Carlos de Assis é economista, doutor em Engenharia de Produção pela Coppe-UFRJ, professor de Economia Internacional da UEPB

29 de Agosto de 2018

Jair Bolsonoro não ganhou nem perdeu o debate na Globo nesta terça-feira. Quem indiscutivelmente perdeu, sendo literalmente esmagada na discussão, foi a dupla de entrevistadores da emissora, William Boner e Renata Vasconcellos. Sua função ali era aparar as arestas de extrema direita do candidato. Não conseguiu. Ao concentrar o debate em temas sociais, e não políticos, deixou que Bolsonaro navegasse em águas tranqüilas, dividindo as simpatias do grande público que parece cansado do esquerdismo social.

Observemos por um momento as questões sociais suscitadas com insistência pelos entrevistadores da Globo – gays, igualdade de gênero, violência contra a mulher. Até que ponto isso é uma questão política? Em outras palavras, como essas questões podem ser resolvidas pela autoridade do Estado? Tenho todo o respeito pelos gays, sou pela igualdade de gênero e sou contra a violência contra a mulher, mas não sei o que um presidente da República, por mais esforçado que seja nessa área, possa fazer para resolver essas questões.

Ao levantar esses pontos, a dupla da Globo simplesmente decidiu fazer uma pegadinha. Queria pegar Bolsonaro numa contradição. Acontece que Bolsonaro é um político de extrema direta com convicções próprias. Os entrevistadores caíram na própria armadilha, pois não souberam desfazer os argumentos radicais do entrevistado, os quais, se não agradaram todo mundo, pelo menos agradaram muita gente. O ponto essencial é que Boner e Renata desempenharam o papel do hipócrita, enquanto Bolsonaro saiu como sincero.

Vejamos a questão dos empregados domésticos. Os entrevistadores tentaram encurralá-lo porque foi o único a votar contra a lei que regulamentou a profissão. Curioso, essa lei é um primor de hipocrisia. Custou milhões de empregos estáveis a muitos empregados domésticos. E criou sérias dificuldades para donas de casa da classe média que já não podiam arcar com os custos das domésticas. Se fosse dada escolha a esses trabalhadores, muitos voltariam ao antigo regime de emprego. É terrível, mas Bolsonaro estava certo.

Alguém pode argumentar que isso aconteceu por acaso. Infelizmente não foi. Na época da aprovação da lei, escrevi artigos dizendo que o salário do doméstico deveria entrar como custo na contabilidade do imposto de renda dos patrões. Teria sido o normal. Se a dona de casa estava sendo equiparada a uma empresa, era justo que os custos com empregados fossem dedutíveis do imposto de renda. Num Congresso de hipócritas, ninguém levou essa sugestão a sério: o objetivo era demagogicamente agradar os domésticos, e pronto.

Nada disso é muito relevante para uma análise da eficácia do debate de terça. O mais importante é o que faltou nele. Nada, absolutamente nada de economia e emprego. Boner preferiu entrar no terreno de uma intriga hipotética entre Bolsonaro e seu assessor de economia, Paulo Guedes. A pergunta idiota era saber o que aconteceria se Guedes entrasse em conflito com o presidente. A resposta foi óbvia: depois de candentes elogios a Guedes, Bolsonaro disse que num eventual conflito com o assessor decidiria como presidente.

O telespectador da Globo não saberá que o assessor econômico de Bolsonaro é um filiado à doutrina monetarista de Milton Friedman, que se vier a ser aplicada no Brasil representará a continuidade da grande depressão em que estamos. Não saberá que o equipamento intelectual de Guedes não passa do receituário ortodoxo de Chicago que ajudou Augusto Pinochet a produzir uma chacina contra a humanidade no Chile. Se os 100 milhões de uns da Globo souberem disso, talvez desistam do candidato nazista, do assessor e da TV Globo.


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