O risco Bolsonaro é cada vez maior. Mercado já fala em abandonar Alckmin


REUTERS/Sergio Moraes

Uma importante consultoria internacional, do economista Nouriel Roubini, utilizada como referência para o mercado norte-americano, acaba de indicar indicou num relatório que "podemos ver uma mudança para apoiar Jair Bolsonaro"; ele passou a merecer manchetes favoráveis de veículos tradicionais como a Folha de S. Paulo ao anunciar seu programa de governo e ser elogiado por fatias cada vez mais amplas das elites, que já não apostam mais em Alckmin


15 DE AGOSTO DE 2018

Por Mauro Lopes - Até pouquíssimo tempo atrás seria ridicularizado qualquer analista que arriscasse a previsão de Bolsonaro ser aceito pelas elites do país e tornar-se o seu candidato nas eleições. Mas ele está deixando de ser o "patinho feio" da direita para se tornar em sua principal alternativa. Passou a merecer manchetes favoráveis de veículos tradicionais como a Folha de S. Paulo ao anunciar seu programa de governo e a ser elogiado por fatias cada vez mais amplas das elites. Nesta quarta (15), a importante consultoria internacional do economista Nouriel Roubini, utilizada como referência para o mercado norte-americano, indicou  num relatório que "podemos ver uma mudança para apoiar Jair Bolsonaro".  

Bolsonaro está antenado com os novos humores e começar a alinhar seu programa econômico ao neoliberalismo e à agenda do governo Temer. Tudo porque o cisne pelo qual suspirava a direita, Geraldo Alckmin, está ele sim convertendo-se no patinho feio. Rodada após rodada de pesquisa o tucano mantém-se estacionado nas pesquisas ao redor de 5% a 6%. Bolsonaro está consolidado ao redor de 20% nas pesquisas e, ao contrário que imaginava a maioria dos analistas de direita e de esquerda, está passando incólume pelas entrevistas e debates realizados pela mídia conservadora até o momento. Todas as últimas fichas da direita, dos tucanos a Temer, ao "centrão" e amplos segmentos empresariais serão jogadas no horários eleitoral gratuito.

Enquanto isso, Bolsonaro faz um giro em seu programa econômico para se tornar o candidato neoliberal por excelência e ser visto como o único capaz de derrotar o PT e coesionar uma base popular conservadora e de agenda moralizante. Bolsonaro vai operando para deixar a imagem de um brucutu fascista e assumir uma agenda e um figurino que lembram o de Collor na eleições de 1989, que reunir características semelhantes: programa neoliberal, discurso contra a corrupção, conservador do ponto de vista dos costumes e alternativa viável para derrotar o PT.

Está dando resultado. Não são poucos os fatos que indicam esta virada para a aceitação das elites ao nome do ex-capitão:

1. O relatório da consultoria do economista Nouriel Roubini, assinado pelo economista sênior para América Latina, Pedro Tuesta, afirma que as últimas pesquisas indicam que Alckmin está mesmo fazendo água: “Nós estávamos cautelosos em relação ao otimismo do mercado quando a coalizão do Centrão apoiou Alckmin publicamente, e continuamos céticos em relação a suas chances”. A análise aposta no poder de transferência do peso eleitoral de Lula para Haddad, se ele for mesmo impugnado pelo TSE, o que deve levá-lo ao segundo turno. Ele chama a atenção ainda para o fato de que a percepção de que Alckmin está ligado ao atual governo é um obstáculo quase intransponível. “Os mercados devem se preparar para ter uma série de notícias negativas e podemos ver uma mudança para apoiar Jair Bolsonaro, apesar das muitas dúvidas sobre seus pontos de vista de direita”, conclui Tuesta (leia aqui).

2. A manchete da Folha de S.Paulo desta quarta (15) é claramente simpática ao programa de governo do candidato do PSL: "Bolsonaro propões fundir ministérios da área econômica". Foi exatamente o que prometeu -e cumpriu- Collor na disputa de 1989. A ideia de juntar todas as pastas econômicas e entregá-las nas mãos de um nome considerado confiável pelas elites praticamente resolve a rejeição a Bolsonaro. Na reportagem, a Folha já começa a comparar o programa bolsonariano ao pensamento do ídolo eterno dos neoliberais, o economista Milton Friedman. Movimento similar acontece em todos os veículos de comunicação conservadores, à exceção, por enquanto, da Globo - os Marinho confiam em seu canhão para fazer valer o nome de Alckmin na corrida; mas, assim como em 1989, se sentirem que a batalha está perdida, ingressarão com armas e bagagens na campanha de Bolsonaro. O programa de governo foi tratado com enorme seriedade por um veículo que é, neste momento, o porta-voz mais azeitado do mercado financeiro, o site InfoMoney (leia aqui). Na segunda (13), Bolsonaro já havia deixado o "mercado" em êxtase, ao afirmar em entrevista ao mesmo site que não irá cobrar imposto sobre a distribuição de lucros das empresas (dividendos) e não irá implantar o imposto sobre herança em âmbito federal, ao contrário de quase todos os demais candidatos a presidente.

3.  A campanha de Bolsonaro divulgou o balão de ensaio de que o estrategista político de Donald Trump, Steve Bannon, irá prestar assessoria "informal" à candidatura. Não se sabe se é verdade. Mas Bannon, uma lenda viva para a direita global, apesar de demitido por Trump, confere ar de relevância e capacidade de articulação internacional a Bolsonaro. Não se sabe ainda se a notícia é de fato verdadeira. Se for, será um reforço importante.

4. Cresce o apoio de fatias do empresariado a Bolsonaro. Começou em meados de julho, quando o presidente da Confederação Nacional da Indústria, Robson Braga de Andrade, declarou simpatia pelo candidato. Na mesma semana, acorreram a um encontro organizado por Abílio Diniz grandes empresários como Candido Bracher, presidente do Itaú Unibanco, David Feffer, presidente do conselho de administração da Suzano, José Roberto Ermírio de Moraes, membro do conselho do grupo Votorantim, Pedro Wongtschowski, presidente do conselho do Grupo Ultra, e Marcelo Martins, vice-presidente da Cosan. Agora, começam manifestações de apoio explícitas, como as de Sebastião Bomfim, dono da cadeia de lojas de artigos esportivos Centauro, uma das maiores redes varejistas do país, Flávio Rocha, da Riachuelo, que desistiu de sua candidatura, Salim Mattar (Localiza), Meyer Nigri (construtora Tecnisa), Fabio Wajngarten (Controle da Concorrência) e o ruralista Luiz Antonio Nabhan Garcia, presidente da UDR.

O patinho feio pode estar virando o cisne da direita. O risco para o país é cada vez maior


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