MARCELO ZERO | O perigo do maior movimento fascista do mundo




Marcelo Zero é sociólogo, especialista em Relações Internacionais e assessor da liderança do PT no Senado

24 de Setembro de 2018


Conforme as pesquisas de opinião, no Brasil cerca de um terço dos eleitores estariam dispostos a votar numa versão patética de Hitler, um medíocre hitlerzinho tropical, sem o carisma, a retórica e a estratégia política do original. Sem sequer um programa de governo. Um grande vácuo pleno de ódio e preconceito. Nada mais, nada menos.

Segundo o TSE, o Brasil tem hoje 147 milhões eleitores. Portanto, cerca de 49 milhões eleitores brasileiros gostariam de votar em nosso hitlerzinho tupiniquim e em seu pitoresco vice, Mourão, o Ariano. Aquele que não confia em mães e avós.

Duvido que, em qualquer outro país, haja 50 milhões de pessoas dispostas a votar num candidato escancaradamente misógino, machista, homofóbico e racista. Um candidato que elogia a tortura, a ditadura e o fuzilamento de adversários. Um candidato que já afirmou publicamente que “democracia não resolve nada”, que o “Congresso deveria ser fechado” e que o único jeito de “consertar o Brasil” é promover uma guerra civil que mate mais ou menos umas 30 mil pessoas, incluindo inocentes. Um candidato que oferece armas para solucionar os problemas do país. Não bastasse, é também um candidato acusado de lavagem de dinheiro e suspeito de enriquecimento ilícito.

Claro está que, em tempos de crise econômica, é natural um crescimento da direita autoritária. As crises geram insegurança, a insegurança gera medo, o medo gera ódio e o ódio se expressa, muitas vezes, em pseudosoluções  fascistoides. Por isso, há um aumento da direita autoritária em todo o mundo.

Mas, nos países verdadeiramente democráticos, as instituições geraram defesas contra o perigo nazista. Se Bolsonaro fosse alemão ou britânico, já estaria preso há muito tempo, pois nesses países é ilegal se fazer apologia do fascismo, do racismo, da tortura, etc. Se norte-americano fosse, jamais seria eleito, como Trump, de direita, foi. Lá, candidato que afirma que o “Congresso deve ser fechado” e que “democracia não resolve nada” não chega nem nas primárias.

No Brasil, infelizmente, aconteceu o contrário. Os golpismo rompeu com o pacto democrático, acabou com a soberania popular, derrubou a presidenta honesta e estimulou o surgimento de grupos escancaradamente fascistas, racistas, homofóbicos e misóginos. Aqui, a direita tradicional, a mídia oligárquica e algumas instituições, principalmente as do Judiciário, trabalharam ativamente contra democracia e pelo estímulo ao autoritarismo protofascista.

Na sua ânsia histérica de derrubar o PT a qualquer custo, derrubaram a democracia e quaisquer defesas contra o crescimento do fascismo. Pagam agora, com seu nanismo político, o preço da sua traição aos princípios democráticos. E o Brasil hoje tem a dúbia “honra” de abrigar o maior movimento protofascista ou fascista do planeta.

É irônico constatar que os responsáveis pela debacle da democracia brasileira e pelo crescimento do fascismo tupiniquim agora acusem Haddad  de ser um “político extremado” e se auto apresentem como “forças moderadas e democráticas”. Isso é simplesmente o cúmulo da hipocrisia e do cinismo.

O PT, goste-se dele ou não, sempre lutou pela democracia e defendeu suas instituições, mesmo quando elas se voltaram contra ele, de forma não republicana.

Já Bolsonaro é a cria bastarda deles, dos golpistas, dos canalhas que avacalharam o Brasil e sua democracia.

Não chega a surpreender, contudo. Max Horkheimer dizia que “o fascismo é a verdade do capitalismo”. Com toda certeza, Bolsonaro é a “verdade” das nossas oligarquias. Elas nunca tiveram, de fato, compromisso real com a democracia e com o Estado democrático de direito. Sempre foram racistas, misóginas e preconceituosas. Sempre apostaram na desigualdade travestida de “meritocracia”. Nunca se livraram da sua mentalidade escravagista e colonizada. Sempre que consideraram necessário, deram golpes de Estado. Militares ou judiciais. O resto é conversa mole de cínicos e hipócritas.

No Brasil, o chamado “campo democrático”, tirando honrosas exceções, sempre esteve concentrado na esquerda e na centro-esquerda. A adesão da nossa direita oligárquica à democracia sempre foi oportunista e superficial. É isso, entre outros fatores, que torna a nossa democracia algo estruturalmente frágil. E é isso que explica também, somada a atual conjuntura de crise profunda, o surgimento do maior movimento fascista ou protofascista do mundo.

Nem tudo está perdido, contudo. Graças ao prestígio e ao gênio político do maior líder popular da história do Brasil, encarcerado pelos golpistas para ser impedido de concorrer, Haddad, o candidato mais preparado, um político moderado e autenticamente democrático, tem totais condições de vencer as forças antidemocráticas no segundo turno.

Para tanto, será necessário formar uma grande frente pela democracia e pela civilização, contra a barbárie antidemocrática do candidato protofascista.

Não temos dúvida que a maior parte da população se somará a essa frente, se dispuser das verdadeiras informações sobre as forças antidemocráticas, que querem destruir seus direitos políticos e sociais. Que detestam mulheres, negros, índios e gays e pobres em geral.

Resta ver o que farão as autointituladas “forças do centro”, que há muito se comportam como forças de direita extremada.

Vão destruir de vez a democracia do Brasil só para impedir o PT de voltar ao poder?  Ou vão apostar na conciliação e na racionalidade política?

Se optarem pela primeira, o Brasil poderá se tornar a grande vergonha do mundo. Um pária internacional definitivo. Um país dirigido por fascistas de almanaque. A ameaça a toda a América Latina, como definiu a conservadora The Economist, poderá se concretizar. Na realidade, ameaça ao mundo.

Se optarem pela segunda, o Brasil terá todas as condições de tornar a ser uma das principais democracias do globo, que deu exemplos ao planeta na época em Lula governava com espírito generoso e conciliador.

Lula, Haddad e o PT, não os golpistas, são o verdadeiro centro político do Brasil. Centro político em mais de um sentido. Se quiserem combater o fascismo em ascensão é melhor ir se acostumando à ideia de que eles precisam voltar à cena.

Haddad ou fascismo? Democracia ou barbárie? Escolham. Não façam o Brasil passar mais vergonha do que já passou e descer mais baixo do que já desceu. 


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