“Quem paga o advogado?” é mais um delírio fascista



POR FERNANDO BRITO · 08/09/2018

Durante 24 horas, a Ordem dos Advogados do Brasil, tão afoita em mergulhar no apoio aos arreganhos do golpismo no Brasil, assistiu passivamente a onda monstruosa de suspeição ao sujeito – é bom repetir, aparentemente fanático e desequilibrado – que agrediu a faca o senhor Jair Bolsonaro.

Quem o estaria pagando? A “esquerda”, a “Ursal”?

Foi tanta a pressão que o advogado teve de vir a público indicar quem o contratara:

– Uma pessoa ligada à igreja dos testemunhas de Jeová de Montes Claros me telefonou na quinta pedindo para eu pegar o caso

Ufa! Que alívio: ninguém vai colocar as Testemunhas de Jeová no meio de uma conspiração comunista, o será que vai. Porque se fosse católico, ah, claro que ia entrar na conta dos “padres comunistas” dos quais tanto esta camada de energúmenos vive falando.

No nosso déficit democrático – sobretudo na mídia, que levanta sempre esta suspeita e dá repercussão aos delírios fascistas – o advogado, direito universal de qualquer ser humano, é imediatamente transformado em cúmplice de seu cliente e vira “defensor de bandido”, alguém que deve “ir pro saco” junto com seu constituinte.

A simplificação – monstruosa como sabem ser as simplificações –  da ideia de Justiça como os “bons” contra os “maus” cria, nas palavras do professor de Direito Criminal Salah Khaled Jr,  “um perigoso nó de forças [que] converge para de forma sistemática aviltar, desprestigiar e aniquilar a própria ideia de defesa, como se ela fosse um obstáculo indesejável para a concretização de uma justiça que é identificada com o poder punitivo”.

Essa monstruosidade, cada vez com mais frequência, é praticada  pelo próprio Judiciário e suas cercanias, no MP e na Polícia, porque desqualificar o defensor e sua atividade são abrir caminho para a afirmação de uma pseudojustiça, moldada unilateralmente pelos detentores do poder de Estado.

Sob o inexplicável silêncio e omissão da advocacia e de sua Ordem, que assistiu quase muda as maiores violências, como a praticada na “Lava Jato”, quando se grampeou os telefones do escritório que fazia a defesa de Lula, por ordem de Sérgio Moro e pedido da turma do Dallagnol.

Os advogados, expostos nos jornais à sanha dos fanáticos, estão sujeitos à detratação pública e até às próprias famílias e amigos terão, constrangidamente, de explicar porque atuam na defesa de um “bandido”  e, já que delírio não tem limite, de “um “comunista de Jeová”.

Na ditadura da farda, quantos foram bater à porta da OAB, pedir socorro a gente como Modesto da Silveira, Nilo Batista, Délio dos Santos,  Raimundo Faoro, Evaristo de Morais Filho e tantos outros. Agora, na ditadura da toga, melhor passarmos a conhecer gente das Testemunhas de Jeová, capazes de fazer a defesa de acusados com mais senso jurídico que a Ordem dos Advogados.

Ou nos prepararmos para a ideia de que direito de defesa é portar uma pistola.


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