ALEX SOLNIK | O Brasil elegeu um ditador e não foi por falta de aviso (até dele próprio)


Valter Campanato - ABR

Alex Solnik é jornalista. Já atuou em publicações como Jornal da Tarde, Istoé, Senhor, Careta, Interview e Manchete. É autor de treze livros, dentre os quais "Porque não deu certo", "O Cofre do Adhemar", "A guerra do apagão" e "O domador de sonhos"

29 de Outubro de 2018 

Não sei o que vai acontecer com o Brasil daqui pra frente, mas coisa boa não vai ser. O fato é que a Nova República acabou (1988-2018) e ninguém sabe o que virá. Meios de comunicação e colunistas panglossianos tentam colocar panos quentes e acalmar o distinto público chamando atenção para detalhes pacificadores e democráticos do ditador eleito: "ele fez vídeo ao lado da constituição"... "prometeu defender a democracia"... "sua homofobia é da boca pra fora"...

Todos conhecem a anedota do elefante que aceita atravessar o rio com o escorpião nas costas. Por mais que Bolsonaro jure amor à democracia ele será incapaz de contrariar sua natureza, tal como o escorpião. Vai ferir a democracia de morte e nunca escondeu e não esconde essa intenção de ninguém. Nem que morra junto com ela.

Já começou na largada.

Em vez de convocar uma coletiva de imprensa para seu primeiro pronunciamento depois de eleito, optou por fazer uma transmissão pessoal por internet. Deixou claro como será seu comportamento com a imprensa: eu falo e vocês anotam. Vai dar ordens por vídeo, sem ser contestado por jornalistas. Os que não forem seus acólitos serão rotulados de comunistas e banidos de alguma forma. Ou alguém tem dúvida disso?

Pela primeira vez na história republicana, o primeiro ato de um presidente eleito foi fazer uma oração cristã, mais precisamente evangélica, num claro desrespeito à constituição que preconiza o estado laico e aos brasileiros de outras religiões. Ele deu o recado de que não pretende governar para todos. E fez um aceno a Edir Macedo que não esconde de ninguém sua ambição de poder. Essa simbiose entre política e religião lembra o regime de Erdogan na Turquia.

Também pela primeira vez, um presidente eleito, em vez de declarar que o fim da eleição deve ser o fim do clima de beligerância declarou guerra aos "comunistas" – a quem, na sua visão distorcida, derrotou – ecoando o discurso da ditadura militar. Ou seja, ele não estendeu a mão ao adversário do segundo turno; declarou-o seu inimigo.

Especialistas no assunto de renome mundial, velhos e contemporâneos, ensinam que um regime autoritário como esse que se desenha a partir de 1º. de janeiro não pode ser enfrentado com sucesso senão com a união das forças democráticas. Não há outra receita.

E, dado o constrangedor espetáculo que assistimos no decorrer do segundo turno, fica difícil imaginar que partidos e líderes que não se alinharam a Bolsonaro se unam ao PT e demais partidos de esquerda. O mais provável é que deem "tempo ao tempo", na esperança de que o capitão que sempre demonstrou ser um xucro tome um banho de civilização.

Não quero ser mensageiro de maus presságios. Mas o Brasil elegeu um ditador e não foi por falta de aviso. Até dele próprio.

Ninguém que votou nele poderá alegar que não sabia.

Brasil 247

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