Até a imprensa conservadora já antevê Bolsonaro como ditador



A imprensa conservadora, pautada por um antipetismo feroz, começa a dar sinais de que sua adesão incondicional e entusiasmada a Jair Bolsonaro está refluindo; foram esses os sinais claros que a Folha de S.Paulo e alguns dos veículos do grupo Globo emitiram nos últimos dias; dentre os jornalistas, ao pequeno grupo de profissionais progressistas que subsistem na imprensa conservadora tem se unido outros, de direita, que rejeitam o neofascismo de Bolsonaro


24 DE OUTUBRO DE 2018

A imprensa conservadora, pautada por um antipetismo feroz, começa a dar sinais de que sua adesão incondicional e entusiasmada a Jair Bolsonaro está refluindo. A lua de mel de ao menos parte da imprensa da direita com o candidato de ultradireita parece estar acabando. Foram esses os sinais claros que a Folha de S.Paulo e alguns dos veículos do grupo Globo emitiram nos últimos dias. O mais expressivo deles foi o editorial desta quarta-feira (24)do Valor Econômico, da família Marinho, sob o título: "Os Bolsonaro atacam a imprensa e a democracia" (aqui)

"Bolsonaro tem pouco apreço pela democracia, como demonstrou em seguidos discursos públicos a favor da ditadura e da tortura", indica o editorial, que prossegue em tom crítico: "As instituições democráticas, construídas após 21 anos dessa ditadura, poderão ser tensionadas se Bolsonaro for eleito e governar com o mesmo espírito com que disputou as eleições. Atitudes de campanha são prenúncios, que já poderiam ser afastados por apelos à moderação e ao bom senso, sem os quais a dura tarefa de recolocar nos eixos a economia, entre tantas outras questões, não será realizada".

O tom é sempre de "uma no cravo e outra na ferradura", pois o distanciamento de Bolsonaro não significa um arrefecimento no antipetismo visceral das mídias conservadoras, representativas das elites. No mesmo texto, o jornal dos Marinho não deixa de manifestar o apoio ao golpe de Estado contra Dilma e derramar seu ódio ao partido de Lula: "A corrupção e o desastre petista na economia custaram-lhe [ao PT] o impeachment e, ao que tudo indica, esta eleição. Como indicam as pesquisas, o povo tende a dar a Bolsonaro a incumbência de consertar a casa da mesma forma com que ela quase foi desarrumada - dentro das regras e métodos da democracia".

Este mesmo movimento é feito pelos Frias e sua Folha de S.Paulo. Ao mesmo em que se antagonizam com Bolsonaro por conta das ameaças dos seus seguidores, a ponto de pedir proteção da Polícia Federal a três jornalistas e ao diretor do Datafolha, o jornal, ao publicar matéria sobre o assunto nesta terça, sob o título "Folha pede que Polícia Federal investigue ameaças a profissionais", não menciona que as ameaças partem de bolsonaristas até o quinto parágrafo do texto. Ao mesmo tempo, faz publicar um editorial que é um violento ataque ao programa de governo de Haddad (aqui) que sequer se dá ao trabalho de analisar de fato as propostas, mas recorre à tradicional chantagem para obrigar o PT a abraçar o receituário neoliberal para a economia. Nesse processo sinuoso, a Folha não considerou relevante examinar o programa de governo de Bolsonaro, um papelucho de 81 páginas em boa medida composto de plágio de artigos de jornais e sites (aqui) sem qualquer esforço de reflexão sobre o país.

Segundo o jornalista Mario Vitor Santos, ex-ombudsman da Folha de S. Paulo e do G1, em entrevista ao programa Giro das 11 da TV247, este movimento da Folha explica-se pela trajetória política e editorial do jornal, que ao fazer uma opção alinhada com a direita do país e cada vez mais conservadoras do ponto de vista dos costumes, perdeu sua tradicional base de leitores de centro e cento esquerda, das camadas intelectuais urbanas e se restringiu cada vez mais a uma base de classe média de direita e reacionária. "A Folha, usando uma imagem um pouco forte, está como que aprisionada por essas criaturas que ela transformou em seus leitores e que a ameaçam com cancelamento de assinaturas e protestos a qualquer movimento de crítica em relação ao Bolsonaro", observou Santos.

É um paradoxo, segundo o ombudsman, porque estes veículos, institucionalmente, pode se colocar na mesma posição que acabaram ocupando depois do golpe de 1964, se Bolsonaro vencer as eleições. Apoiaram o golpe de Estado e se tornaram vítimas de uma ferrenha censura do Estado autoritário, como Bolsonaro já deixou claro que pretende fazer. Este não é um dilema para veículos e projetos políticos que aderiram de corpo e alma ao bolsonarismo, como a Rede Record, da Igreja Universal do Reino de Deus, de Edir Macedo, a Rede Bandeirantes, o jornal O Estado de S.Paulo e a rádio Jovem Pan de São Paulo, por exemplo. Todos eles disputam o "privilégio" de se tornarem porta-vozes do movimento neofascista no país.

Enquanto os veículos da mídia conservadora movem-se de acordo com interesses e cálculos de seus proprietários, há alguns jornalistas, onde há um mínimo espaço de manifestação, que começam a revisitar sua adesão à direita e, mais recentemente, à extrema-direita, e revisitam sua posição inicial de simpatia em relação a Bolsonaro. O primeiro a realizar este movimento foi Reinaldo Azevedo, uma estrela do antipetismo e do pensamento de direita radical na imprensa e que começou a perder espaço na medida em que foi se colocando criticamente em relação aos ataques à democracia da Lava Jato e, agora, de Bolsonaro. Azevedo é o criador da palavra "petralha" que se tornou num ponto de unidade do antipetismo do país. Ele tem repetido que nunca recebeu uma ameaça de morte enquanto criticava o PT, e que, agora, recebe ameaças diariamente dos bolsonaristas.

Outra que tem sido sistematicamente ameaçada é Miriam Leitão. A jornalista, que tem coluna no jornal O Globo e na rádio CBN e é presença diárias nos programas da TV Globo e GloboNews, foi uma das líderes do antipetismo no grupo da família Marinho e é vista como uma porta-voz informal de seus patrões. Bastou começar a se distanciar do discurso de ameaça à democracia de Bolsonaro e começou a sofrer ataques em massa.

Outros jornalistas ou comentaristas da imprensa conservadora historicamente antipetistas e que agora confrontam Bolsonaro pelo risco que o neofascismo representa são Elio Gaspari (Folha e O Globo), Marcelo Coelho (Folha) e Ricardo Noblat (ex-O Globo e agora Veja).

Eles convivem, nestes veículos, com alguns poucos jornalistas que nunca se deixaram contaminar pelo antipetismo e antagonizaram-se com o bolsonarismo desde o primeiro momento, como Janio de Freitas, Maurício Stycer e Nélson de Sá, na Folha de S.Paulo, e Bernardo Mello Franco e Kennedy Alencar, nas empresas da família Marinho.

Se Haddad vencer, todos aqueles que inciaram um movimento de antagonismo com Bolsonaro mas são antipetistas viscerais retornarão à sua posição de origem; os poucos progressistas nos veículos conservadores, sobreviverão a duras penas. Se Bolsonaro vencer, haverá um movimento de crescente oposição a ele, na medida em que decisões de cunho autoritário forem de tornando políticas de governo.     


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