Jornal francês Le Monde alerta sobre a preocupante volta ao passado do Brasil



 O jornal francês Le Monde afirmou em editorial nesta segunda-feira, 29, que a eleição de Bolsonaro é "nostálgica da ditadura", e que faz o Brasil juntar-se à lista de países que adotaram o "nacional-populismo"; "A campanha eleitoral de 2018, longe de revigorar uma democracia doente, acentuou seus males", diz o Le Monde; "Sua capacidade para governar dependerá agora de como ele irá construir uma maioria sólida no Congresso, apesar de suas tendências radicais. Se não alcançar a maioria, ele presidirá por decretos, como já mencionou"

29 DE OUTUBRO DE 2018

O jornal francês Le Monde alertou nesta segunda-feira, 29, para os riscos de retrocesso na eleição de Jair Bolsonaro (PSL) como presidente do Brasil. Em editorial, o Le Monde afirma que com a eleição de Bolsonaro é "nostálgica da ditadura", e que faz o Brasil juntar-se à lista de países que adotaram o "nacional-populismo".

"A campanha eleitoral de 2018, longe de revigorar uma democracia doente, acentuou seus males. Os discursos de Jair Bolsonaro, fracamente articulados, se reduzem a um ultranacionalismo quimicamente puro, totalitário e vingativo. O Brasil, invocado em quase todas as suas frases, deve ser libertado, segundo ele, depurado e purificado dos 'delinqüentes' e dos 'vermelhos'. Sua capacidade para governar dependerá agora de como ele irá construir uma maioria sólida no Congresso, apesar de suas tendências radicais. Se não alcançar a maioria, ele presidirá por decretos, como já mencionou", diz o jornal.

Leia, abaixo, o editorial do Le Monde na íntegra, em tradução de Sylvie Giraud.

Brasil: Preocupante retorno ao passado

Editorial do "Le Monde". O Brasil acaba de eleger um presidente racista, sexista, homofóbico e defensor da tortura. Jair Bolsonaro, ex-pára-quedista, nostálgico de um período ditatorial (1964-1985) que parecia estar para sempre confinado à história, é o primeiro militar eleito desde a ascensão ao poder em 1946, de Gaspar Dutra.

Eleito com uma folgada maioria (55,1% dos votos), o candidato de extrema-direita fecha um parêntese da história brasileira de treze anos de governos liderados pelo Partido dos Trabalhadores (PT) de Lula, aos quais vêm acrescentar-se trinta e três anos de alternância política moderada entre o centro-esquerda e o centro-direita. Com exceção apenas da vitória, em contracorrente, de Andrés Manuel Lopez Obrador no México, seja a eleição de Sebastian Pinera no Chile, a de Mauricio Macri na Argentina ou a de Ivan Duque na Colômbia, os principais pleitos políticos na América Latina apontam todos, unilateralmente, em uma mesma direção. Fora esta exceção, a "virada à esquerda" do subcontinente parece já fazer parte do passado.

No Brasil, o impeachment da presidente Dilma Rousseff, em agosto de 2016, a condenação de seu predecessor, Lula, em julho de 2017 e sua prisão em abril de 2018 além da interdição para que reapresente sua candidatura, são todos acontecimentos que marcam um contexto de intensa virada à direita do maior país da América do Sul.

Nenhuma ambigüidade sobre seu extremismo

O percurso do futuro presidente não padece de nenhuma ambiguidade sobre seu extremismo. Eleito deputado em 1991, Jair Bolsonaro é então acusado de ter tentado organizar atentados para chamar a atenção sobre os baixos salários dos militares, o que o levou a passar duas semanas na prisão. Será preciso esperar o final da década de 1990 para que a opinião pública descubra sua violência verbal.

Em pleno Congresso, em 1999, ele lamenta que a ditadura não tenha executado 30.000 corruptos a mais, incluindo o presidente Fernando Henrique Cardoso. Quatro anos depois, em um debate na televisão, ele diz à deputada do PT, Maria do Rosário, que ele nunca a estupraria pois ela não o merecia. Uma afirmação que ele repete, onze anos depois, nos corredores do Congresso, dirigindo-se àquela que, no ínterim, tornou-se secretária dos direitos humanos no governo Dilma Rousseff.

Aos 63 anos, Jair Bolsonaro é de longe o político de direita eleito mais extremista na história recente da América Latina. Não fosse suficiente sua violência verbal, ele se destaca com frequencia por seu racismo em relação aos povos indígenas e negros, sua misoginia e seu culto às armas. Rapidamente, essa retórica lhe vale a alcunha na imprensa de "Trump brasileiro" ou "Trump Tropical".

Ultranacionalismo quimicamente puro

A campanha eleitoral de 2018, longe de revigorar uma democracia doente, acentuou seus males. Os discursos de Jair Bolsonaro, fracamente articulados, se reduzem a um ultranacionalismo quimicamente puro, totalitário e vingativo. O Brasil, invocado em quase todas as suas frases, deve ser libertado, segundo ele, depurado e purificado dos "delinqüentes" e dos "vermelhos". Sua capacidade para governar dependerá agora de como ele irá construir uma maioria sólida no Congresso, apesar de suas tendências radicais. Se não alcançar a maioria, ele presidirá por decretos, como já mencionou.

O Brasil vem aumentar a já longa lista de países que mergulharam no nacional-populismo em vários lugares do globo, dando a impressão de que nenhum continente está imune a essa onda. Essa dinâmica perigosa tomará forma rapidamente através de efeitos muito concretos no Brasil.

Assim, com a chegada do senhor Bolsonaro ao Palácio do Planalto, em Brasília, é de se esperar uma espetacular aproximação diplomática com Washington e com um Donald Trump que compartilha a mesma visão sobre certo número de assuntos. O novo Presidente deve se alinhar com a posição dos EUA em relação a Israel, mas também à Venezuela. Mas não só; ele prometeu igualmente que sob seu mandato o Brasil sairia do acordo climático de Paris e fecharia a agência brasileira responsável pelo desmatamento e a demarcação das terras indígenas. Para o Brasil, para Amazônia e para o planeta, trata-se de um retorno preocupante ao passado.


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