RIBAMAR FONSECA | Togados querem influir de qualquer modo nas eleições

Editora 247


Ribamar Fonseca é jornalista e escritor

2 de Outubro de 2018

Com a decisão do juiz Sergio Moro de liberar para divulgação a delação do ex-ministro Antonio Palloci, delação essa recusada pelo Ministério Público por falta de credibilidade, confirma-se o que muita gente já desconfiava: Moro faz política e os inimigos do PT, que tem no Judiciário seu principal aliado, fariam alguma coisa à última hora para tentar impedir a vitória de Fernando Haddad. O ex-ministro, segundo rumores que há tempos circulam nos meios ligados à Lava-Jato, teria feito graves acusações sem provas ao ex-presidente Lula. A delação, que certamente ganhará da mídia, especialmente da Globo, tratamento de escândalo, obviamente tem o objetivo de influenciar o eleitorado, de modo a prejudicar o desempenho do candidato petista logo no primeiro turno. Se produzir o efeito desejado pelo juiz de Curitiba, a divulgação da delação beneficiará, por outro lado, a candidatura de Jair Bolsonaro, que hoje conta com a simpatia dos anti-petistas, dentro e fora do Judiciário, que já se convenceram do fracasso do seu candidato Geraldo Alkmin. Portanto, Moro, Fux e todos os que estão dando a sua contribuição para uma eventual eleição do ex-capitão serão responsáveis pelo que de pior poderá acontecer ao país, sobretudo neste clima de intolerância e ódio que domina parte da população. Estão brincando com o povo e o futuro da Nação.

O Brasil era, até um passado não muito distante, reconhecido mundialmente não apenas por causa do carnaval e do futebol mas, também, por conta da alegria e da fraternidade do seu povo. Os brasileiros, formados por uma mistura de raças, sempre foram alegres, ordeiros e fraternos, até quando a intolerância e o ódio começaram a ser disseminados e estimulados pela mídia e redes sociais, transformando em inimigos os que não partilham da mesma opinião, seja religiosa, futebolística ou política. No campo político não mais se pretende vencer os antigos adversários, hoje inimigos, no voto, mas na bala. E foi nesse clima que os responsáveis por sua implantação pariram Jair Bolsonaro, um deputado medíocre que de repente virou fenômeno, arrebatando multidões em todo o país com poses simulando armas. O que teria provocado tal fenômeno? Provavelmente as suas pregações de violência, como matar bandidos por exemplo, encontraram eco entre as pessoas dominadas pelo ódio. É assustador aquela cena, divulgada em todo o país, em que ele é aplaudido entusiasticamente pela multidão quando simula empunhar uma metralhadora e grita: "Vamos fuzilar a petralhada do Acre!" A que ponto chegamos! Ameaça de matar recebe aplausos.

A intolerância e ódio explícitos que, vez por outra, explodem em ações criminosas, crescem de maneira preocupante no seio da população, especialmente entre os jovens, muitos deles se espelhando no próprio Bolsonaro. Ainda recentemente um estudante entrou no seu colégio no interior do Paraná e disparou contra seus colegas, fazendo alguns feridos. O Brasil corre o risco de caminhar para uma situação idêntica a dos Estados Unidos, onde todos tem o direito de possuir armas e, certamente por isso, são frequentes os atentados com muitas mortes em escolas, igrejas e supermercados. Muita gente que acredita que matar bandido é a melhor solução para o problema da criminalidade no país se tornou admiradora e eleitora do ex-capitão, justamente porque ele defende o armamento da população. Os seus eleitores querem ter o direito de empunhar legalmente uma arma. Se Bolsonaro chegasse a ser eleito, o que a cada dia felizmente parece mais distante diante do acelerado crescimento da candidatura de Fernando Haddad, teríamos milhares de pessoas nas ruas com armas na cintura prontas para matar ao menor desentendimento, além de atos violentos de racismo (Bolsonaro disse que os negros não servem nem para procriar) e de homofobia (ele não admite ter um gay sequer como vizinho). E o Brasil se transformaria no próprio inferno.

As eleições do próximo dia 7 de outubro serão, talvez, as mais importantes de nossa História, porque delas dependerão não apenas a escolha do novo Presidente da República mas, principalmente, do Brasil que queremos: se um Brasil dominado pelo ódio, onde os seus patrícios e irmãos serão tratados como inimigos, ou um Brasil de paz e amor ao próximo, onde o espírito de fraternidade dominará a todos. Os brasileiros que amam este país não podem permitir que o fascismo faça morada em nossas terras. A maioria do povo, que repudia esse clima de intolerância e ódio, deve exorcizar nas urnas o fantasma do fascismo, exercendo o poder que a Constituição lhe concede e que tem sido usurpado pelos homens de toga, que se mostram mais preocupados com o poder do que com a situação do país e da sua população. A cassação do voto de mais de 3 milhões de brasileiros, mais uma violência contra o povo e a Carta Magna, parece indicar a sua indiferença sobre o futuro do país, justo no momento em que o destino da Nação está em jogo. A Justiça será uma das principais responsáveis por uma eventual eleição de Bolsonaro e todos os problemas daí advindos.

Tem-se a nítida impressão, na verdade, que, a julgar pelo seu comportamento, muitos togados tem ódio do PT e se tornaram bolsonaristas enrustidos, transferindo para o ex-capitão a tarefa de derrotar o petismo, à falta de outro candidato anti-petista mais competitivo. Não há outra explicação, por exemplo, para a decisão do juiz Sergio Moro, de divulgar a delação de Antonio Palloci às vésperas da eleição, e do ministro Luiz Fux, do Supremo, que proibiu uma entrevista do ex-presidente Lula sem nenhuma justificativa, afrontando o seu colega Ricardo Lewandowski, que a havia autorizado, sem importar-se com o mal estar que causou entre os seus pares. A censura não teve outro objetivo senão beneficiar o candidato do PSL, pois impediu Lula de apelar diretamente aos eleitores com vistas à transferência de votos para o seu candidato Fernando Haddad. O que surpreende, também, é que o novo presidente da Corte Suprema, o ministro Dias Tóffoli, comportando-se tal qual a sua antecessora Carmen Lucia, negou-se a colocar a questão na pauta para julgamento do plenário com a esfarrapada desculpa de que é um tema polêmico. E mais: só vai liberá-la depois da eleição. Ou seja, qualquer coisa que envolva o ex-presidente e possa beneficiá-lo será sempre polêmico e, portanto, vai ficando para ser julgado depois, provavelmente depois que ele cumprir a pena que lhe foi imposta pelo juiz Sergio Moro. O presidenciável Guilherme Boulos tem toda razão quando diz que o Brasil está uma esculhambação.


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