RIBAMAR FONSECA | Começa agora a incerteza da era Bolsonaro


Adriano Machado - Reuters

Jornalista e escritor 

31 de Dezembro de 2018 

O Brasil inicia neste janeiro uma nova era: a era Bolsonaro. Só ainda não se sabe se será boa ou má, embora todos os indícios apontem para um brutal retrocesso, a começar pela política externa. Apesar dessa perspectiva, ainda há quem veja o novo governo com esperança de melhores dias. Esse otimismo, já detectado em pesquisa do Datafolha, certamente se manifesta entre os eleitores do ex-capitão, os mesmos que o aplaudiram com entusiasmo todas as vezes em que empunhava armas imaginárias e falava em matar. A maioria dos seus eleitores acredita que ele vai solucionar o problema da segurança pública matando os bandidos, promessa que foi o principal motor da sua eleição. Esses mesmos eleitores, ainda anestesiados pela vitória do seu candidato, não parecem preocupados até agora com os demais problemas do país, como o desemprego, saúde, educação, etc, mas passada a lua-de-mel com certeza vão começar a cobrá-lo, uma vez que essas questões, até mesmo a criminalidade, não se resolverão com o puxar de um gatilho. Ou com postagens nas redes sociais. Afinal, já dizia Confúcio que "ninguém consegue enganar a todos todo o tempo".

Apesar do otimismo de parte da população, porém, que passou a idolatrar o ex-capitão justamente pela promessa de matar bandidos, a realidade é bem diferente das postagens. O novo presidente não parece preparado para governar um país de dimensões continentais como o Brasil, até porque nunca administrou nem um carrinho de pipoca. Depois que deixou o Exército, compulsoriamente, elegeu-se deputado federal, exercendo o mandato por quase três décadas com uma atuação medíocre. O Surpreendente salto do Legislativo para o principal cargo executivo do país, no entanto, não o tornou apto, como um passe de mágica, para gerir os destinos da Nação. Ele também não demonstrou perspicácia na escolha dos seus auxiliares como, por exemplo, o ministro das Relações Exteriores, totalmente alienado para as importantes funções, a ponto de dizer que Trump e Bolsonaro trouxeram Deus de volta para o Brasil. O vice-presidente Hamilton Mourão, por suas posições mais equilibradas, tem se revelado mais preparado para governar o país, o que certamente já desperta ciúmes no titular, com inevitáveis desdobramentos no decorrer do governo. E entre as dificuldades já visíveis está o relacionamento do capitão-presidente com a mídia. 

A relação do novo governo com a imprensa será diferente a partir de 2019. Seguindo o exemplo do seu ídolo, Donald Trump, que se elegeu ignorando a imprensa e utilizando apenas as redes sociais, o ex-capitão chegou ao Palácio do Planalto pelo mesmo caminho e, diante do êxito da empreitada, continua imitando o presidente norte-americano que, depois de empossado, passou a brigar com os jornalistas. Ao contrário dos governos petistas de Lula e Dilma que, mesmo levando pancada diariamente da grande mídia, mantiveram a gorda publicidade oficial, Bolsonaro partiu logo para a briga, enfrentou os grupos familiares de comunicação e garantiu que vai cortar a verba publicitária que antes beneficiava esses veículos. E só se comunica através de postagens nas redes sociais, por onde anunciou o seu ministério e as medidas a serem adotadas pelo seu governo. Ou seja, consciente do seu poder, ignora solenemente a imprensa que, se quiser dar notícias sobre as atividades dele, precisa estar atenta às suas postagens na Internet. 

Com esse comportamento o novo Presidente deixou a imprensa de quatro e na coleira, ainda assim tentando agradá-lo com jeito para não perder de todo a verba publicitária, situação vista por um dos seus filhos, o vereador Carlos Bolsonaro, como "cagaço". E tudo o que ele posta, como as fotos lavando a própria roupa, por exemplo – uma inteligente jogada de marketing para melhorar a sua imagem e que certamente sensibilizou os beócios que o elegeram – a humilhada imprensa divulga com destaque. Como entende hoje que não precisa da imprensa – e nem a teme – porque tem linha direta com a população através da Internet, Bolsonaro parece não estar preocupado com as críticas. Afinal, com uma bem montada equipe de marketing, distribuindo fotos e notícias, e, também, com a sua indústria de fakenews funcionando a pleno vapor, para que ele precisa da mídia? Depois da invenção da Internet, hoje o mais eficiente veículo de comunicação de massa, ninguém tem dúvidas de que o desaparecimento da mídia impressa é só uma questão de tempo. Trump descobriu isso antes dos outros. 

O fato é que a incerteza é a única certeza dos próximos quatro anos. Os "bolsonaros" de todo o país que saíram do armário e serão armados por força de um decreto, convencidos de que no novo governo terão garantida a impunidade para seus crimes, precisarão de muito tempo de violência e agruras para entender que escolheram o ídolo errado. Criados pela mídia familiar que, através de uma campanha sistemática contra o petismo durante anos, preparou o terreno para o seu surgimento, eles revelaram os seus piores instintos, até então represados pela sociedade. Fazendo a cabeça de parte da população contra as esquerdas, a grande imprensa provocou danos quase irreparáveis em sua capacidade de pensar, e até os que foram beneficiados pelas políticas sociais de Lula – também os ministros nomeados por ele para o Supremo Tribunal Federal – passaram a hostilizá-lo. Os principais responsáveis pela eleição de Bolsonaro e suas consequências, incluindo a volta dos militares ao poder pelo voto popular, foram a imprensa e o Judiciário, a primeira por criar um ambiente propício inclusive para o golpe de 2016 e o segundo por impedir o candidato favorito de participar das eleições. Sem eles, o ex-capitão, mesmo com sua indústria de fakenews, jamais seria Presidente.


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