RIBAMAR FONSECA | O silêncio ensurdecedor de Sérgio Moro


Valter Campanato/Agência Brasil

Jornalista e escritor

10 de Dezembro de 2018 

Não satisfeito em ter sido o magistrado mais poderoso da Justiça brasileira, com um poder maior ainda do que o do Supremo Tribunal Federal – que nunca teve coragem de contrariá-lo – o ex-juiz Sérgio Moro quer o poder total, absoluto, talvez de imperador ou ditador. Pelo menos foi isso que ele deixou transparecer durante uma palestra em Madri, onde disse que se sentia muito limitado como juiz, embora tivesse desrespeitado a Constituição, feito suas próprias leis e intimidado até a Suprema Corte. "Cansei de levar bola nas costas", ele acentuou, motivo pelo qual decidiu aceitar o convite para ocupar o Ministério da Justiça no Governo Bolsonaro, onde terá muito mais poder. Por aí já será possível prever-se, com Moro ministro, o estado policial que entrará em vigor. Se como juiz de Primeira Instância ele mandava e desmandava na Policia Federal, chegando a afrontar o STF, o que não fará como ministro? Até Papai Noel, nos shoppings, já trocou a sua tradicional indumentária vermelha por outras cores, com medo de ser confundido com comunistas ou petistas, os alvos prediletos da Operação Lava-Jato que celebrizou o ex-juiz.

Com o pretexto de combater a corrupção, desculpa para justificar seus abusos, Moro conseguiu o apoio da população e, também, da mídia, que nunca questionou os seus métodos, embora condenados por juristas de renome do país e do exterior. A mídia o transformou em super-herói e ele navegou na fama para chegar ao Ministério da Justiça, para onde pretende levar o pessoal que trabalhou com ele na Lava-Jato, inclusive o delegado da PF que se negou a cumprir ordem do desembargador Favreto para libertar Lula. Ele já está prometendo investigar todo mundo, mas alguém acredita que o futuro chefe da Casa Civil, Ônyx Lorenzony, acusado de caixa dois, vai entrar no seu radar? Vai investigar o Bolsogate? E as milionárias operações de fakenews no WhatsApp, denunciadas pela "Folha de São Paulo", que elegeram o capitão reformado? Ele vai investigar? Difícil porque as denúncias de jornal só tem servido até agora apenas para criminalizar petistas e condená-los com base na teoria do domínio do fato.

Na verdade, tem muita coisa estranha acontecendo sem que as autoridades competentes decidam investigar. Um filho do presidente eleito denunciou que tem gente muito perto do pai querendo matá-lo e ninguém fez nada para tentar identificar o suspeito, inclusive colhendo o depoimento do rapaz. O próprio Bolsonaro confirmou a denuncia do filho e ainda assim nada foi feito para desmontar esse suposto complô contra ele. Mais recentemente o general Etchegoyen, ministro da Segurança Interna, confirmou a existência de ameaças de morte ao capitão, mas não disse se existe alguma investigação a respeito. Ora, se eles todos estão sabendo disso o que estão esperando para pegar o suspeito? Com um aparato que identificou, em pouco tempo, o racista que ofendeu Maju, a moça do tempo da Globo, por que até agora não prenderam o autor das ameaças? Muito estranho. Nem mesmo o futuro ministro da Justiça, sempre tão lesto, se manifestou sobre as ameaças.

Moro também silenciou sobre o relatório do Coaf que detectou movimentação suspeita de mais de R$ 1 milhão, em um ano, na conta do ex-assessor e motorista do deputado e senador eleito Flavio Bolsonaro. Ao ser perguntado sobre o fato, durante uma entrevista, o ex-juiz saiu de fininho sem responder. Por que ninguém quer falar sobre o assunto? O vice-presidente eleito, general Mourão, cobrou uma explicação, o que certamente não agradou aos Bolsonaro. Na verdade, se não houver uma explicação convincente, as suspeitas tendem a se avolumar a menos de um mês da posse do novo Presidente, que se elegeu brandindo a bandeira do combate à corrupção. Até porque a grande mídia, que até pouco tempo dava apoio ao presidente eleito, está em cima do tema, buscando, como é do seu dever, manter bem informado o seu público leitor. E os que votaram no capitão reformado já não escondem a sua decepção, já agora também com o futuro ministro da Justiça que, de repente, mudou seu comportamento.

Aliás, o ex-juiz vem entrando numa saia justa atrás da outra. Parece que depois que aceitou o convite para ser Ministro da Justiça do governo Bolsonaro passou a olhar a corrupção por outra ótica. Até recentemente considerava o caixa dois mais grave do que a corrupção, mas "perdoou" o seu futuro colega de Ministério, Onyx Lorenzoni, depois que ele confessou e pediu desculpas pela prática do caixa dois. E ainda disse que confiava nele. A mudança de ótica talvez seja pelo fato de estar vendo tudo agora de mais alto. De qualquer modo, mais cedo ou mais tarde ele terá de se manifestar publicamente sobre todos esses episódios, porque a imprensa, cumprindo o seu papel, precisa ouvir a opinião do ex-juiz que ocupará o poderoso Ministério da Justiça, ao qual estarão afetas todas essas questões e outras que ele ainda deverá colocar sob sua alçada. Afinal, como bem disse o general Mourão, o governo precisa dar explicações à sociedade, para que não pareça estar encobrindo alguma coisa.

Brasil 247

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