A lama é o rejeito da voracidade capitalista



POR FERNANDO BRITO · 25/01/2019

Evidente que nenhuma pessoa responsável pode apontar as causas diretas do horrível rompimento da barragem de rejeitos de mineração da Vale em Brumadinho.

Não há, sequer, informações precisas sobre o número e a gravidade das vítimas do acidente.

Embora, sendo a segunda catástrofe ambiental e humana em três anos de mineração, a palavra acidente já deva ser vista com certa reserva.

A privatização fez crescer muito a produção de minério de ferro, que dobrou desde o fim do controle estatal e mineração é uma indústria que deixa rejeitos e devastação por onde passa. Mesmo com programas de recuperação ambiental, o custo é certamente enorme.

Mas há outro fator que deve entrar nas preocupações de quem cuida da segurança desta atividade: os picos de produção que, em função do preço do minério, a extração alcança.

Ano passado, a Vale extraiu  390 milhões de toneladas de minério,  um aumento de cerca de 6,5 % ante 2017. Mas, daqueles 390 milhões, 220 milhões foram apenas no segundo semestre, ou 60%. Não tenho dados das minas da região de Brumadinho, mas é provável que não tenham ficado fora do esforço geral que levou a um aumento de 25% em nossas exportações de minério de  ferro.

Foram 394,24 milhões de toneladas, frente a  314,37 milhões de toneladas exportadas em 2017.

Não é implausível, para usar a palavra da vez, que isso tenha se dado sem o correspondente aumento das estruturas, porque mais minérios igual a mais rejeitos.

Se tivéssemos tido dois desastres ambientais como este nos campos de petróleo, a esta altura já estariam chamando a Petrobras de criminosa.

O fato é  que está evidente que, ao contrário do que diz o atual presidente, a fiscalização do Estado tem que ser posta “no cangote” das mineradoras, que ganham fortunas.

E que, além da corrupção – quem vai bater de frente com eles, o prefeito de Brumadinho? – produzem, como se está vendo, outros mares de lama.


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