ALEX SOLNIK | A “ameaça vermelha” foi pretexto para duas ditaduras


Agência Brasil

Jornalista. Já atuou em publicações como Jornal da Tarde, Istoé, Senhor, Careta, Interview e Manchete. Autor de treze livros, dentre os quais "Porque não deu certo", "O Cofre do Adhemar", "A guerra do apagão" e "O domador de sonhos"

2 de Janeiro de 2019

Bolsonaro não perdeu tempo. Logo no primeiro discurso disse a que veio. "Nossa bandeira nunca será vermelha", gritou para aplausos delirantes dos seus seguidores reunidos em frente ao Palácio do Planalto. "Se for preciso, daremos o nosso sangue para ela permanecer verde-amarela", disse ainda, conseguindo mais aplausos.

A "bandeira vermelha" nunca chegou perto de existir no Brasil. Nunca houve ameaça "vermelha", muito menos hoje. O problema é que a ameaça vermelha já foi usada duas vezes como pretexto para dois golpes de Estado, em 1937 e em 1964.

Não havia ninguém criando ou imprimindo bandeira vermelha. Em 1937, o setor integralista do governo Getúlio produziu um "documento" apócrifo, com o consentimento do Alto Comando das Forças Armadas que conteria instruções do Komintern para os comunistas brasileiros tomarem o poder. 

Ninguém viu esse documento, mais tarde denominado "Plano Cohen", porque ele nunca existiu. Mas foi tomado por verdadeiro porque os chefes militares mandaram colocar o caso nas manchetes dos jornais. E Getúlio instalou a ditadura para evitar a ameaça vermelha. A ameaça era ele, como logo os brasileiros veriam.

Em 1964, os generais repetiram a dose. Dessa vez não forjaram documentos falsos, mas acusaram o presidente João Goulart, um rico fazendeiro, de preparar um golpe comunista. Não havia indícios, provas, documentos. Nada. Nem fake News. Mas criou-se essa narrativa na imprensa, de que ele era o inimigo número da pátria e que a vendeu aos soviéticos. Deveria ser derrubado, portanto. E foi.

Hoje em seu discurso Bolsonaro disse absurdos tais como "no Brasil não haverá mais socialismo" (como se alguma vez tivesse havido), "vamos afastar ideologias nefastas", "acabar com a ideologização das crianças " (onde? Ele acha que está na Coréia do Norte???), "acabar com a ideologia que defende bandidos" (que ideologia é essa?), "acabar com o politicamente correto" e finalmente "vamos restabelecer a ordem" (há alguma desordem por aí?).

Todas as frases são autoritárias, ameaçadoras e hostis à democracia. E tentam criar uma assombração que não existe.

Não é bom sinal começar o governo com discurso que repete o de duas ditaduras.


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