JOSE CARLOS DE ASSIS | Bolsonaro entre a cruz dos caminhoneiros e a volúpia dos operadores de mercado



Economista, doutor em Engenharia de Produção pela Coppe-UFRJ, professor de Economia Internacional da UEPB

13 de Abril de 2019

A Petrobrás não é uma empresa privada. É uma empresa de economia mista  controlada pelo setor público. Todo acionista sabe ou deveria saber disso quando compra ou comprou ações da Petrobrás. O controlador de uma empresa de economia mista tem evidente prerrogativa de intervir na política de preços dela e em outros pontos estratégicos. Do contrário, o Estado se tornaria escravo do mercado, independentemente dos interesses de seu povo e atropelando as razões pelas quais a empresa foi criada originalmente.

A  política de preços de  empresa de economia mista deveria ser igual ao de empresa pública comum: preço pelo custo. Toma-se a amortização anual do investimento, o custo da matéria prima e de todos os insumos usados no processo produtivo, o custo administrativo e o custo de pessoal e calcula-se sobre tudo isso uma margem de lucro razoável para financiar investimentos novos se remunerar o acionista. Claro que isso evita a dança dos preços dos bens produzidos e assegura a estabilidade da empresa e também o lucro do acionista.

No caso da Petrobrás, a estratégia decisiva diz respeito à própria estrutura de produção da empresa. Ela está sendo dilapidada pelas suas diretorias desde Temer. A Petrobrás está vendendo redes de distribuição de gás, nesse caso favorecendo absurdamente o setor privado que compra um negócio sem risco, pois o principal cliente é a própria Petrobrás. Mais criminoso que isso é sua intenção de vender as refinarias pelo simples gosto de entregá-las ao setor privado para exploração também semi-monopolista.

Ainda em relação às refinarias, a Petrobrás invoca razões exclusivamente ideológicas e eventualmente dá margem a suspeitas de corrupção. Para isso está reduzindo sua produção de derivados como gás, gasolina e diesel, a fim de ampliar a participação de empresas estrangeiras, principalmente norte-americanas, nesses mercados. Isso é um crime contra a economia popular e o conjunto da sociedade pois a empresa opera no sentido de produzir menos internamente, mais barato, para comprar lá fora derivados, inclusive diesel, mais caros.

Veremos o que Jair Bolsonaro vai fazer na terça. Os caminhoneiros revoltaram-se justificadamente contra os reajustes absurdos do diesel. A Petrobrás teve que recuar no curto prazo. De qualquer forma, o Presidente está numa situação de ser escravo ou dos caminhoneiros, ou do mercado. Será um grande teste. A reação do mercado na sexta foi significativa: quer forçar a capitulação dele derrubando os preços das ações. Diante desse dilema talvez Bolsonaro proponha aquele tipo de acordo para o diesel que empurrou o custo para as costas do contribuinte em geral com uma fórmula de engano aos caminhoneiros.

Entretanto, não seria surpreendente que um presidente que não entenda nada de economia, e além do mais rodeado por  ideólogos neoliberais, acabe enquadrando a molecada que tomou conta os postos chave da administração econômica nacional. É que em cem dias de governo Bolsonaro já machucou o povo de forma tal que pensará duas vezes antes de acrescentar  mais essa traição, dessa vez a trabalhadores que, em sua maioria, provavelmente votaram nele. Espera-se, porém, que da negociação não resulte uma espécie de subsídio cruzado em favor do diesel e em detrimento do gás e da gasolina. Isso enfureceria donas de casa pobres e o mundo que usa gasolina. É que, deste governo, tudo se pode esperar. 


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