Sergio Moro pode acabar preso na teia de aranha que ele mesmo teceu



O ministro Sergio Moro no Palácio do Planalto.
Foto: AFP

O juiz dos sonhos de Bolsonaro se vê dia após dia deixado a sós com seus projetos, que poucos congressistas, muitos deles ainda enrolados com a Lava Jato, têm interesse em aprovar

JUAN ARIAS | 24 JUL 2019

Ainda não acabou a história do mítico juiz Sergio Moro, que com a operação Lava Jato criou um terremoto dentro e fora do Brasil, levando à prisão desde ex-presidentes da República, como o popular Lula da Silva, a empresários milionários, como Marcelo Odebrecht. De repente, o juiz deu o salto para a política, aceitando o Ministério da Justiça no governo de extrema direita de Jair Bolsonaro. 

As novas conversas publicadas no domingo passado pelo The Intercept dão a entender que até o fiel escudeiro de Moro, o procurador-chefe da Lava Jato, Deltan Dallagnol, e outros colegas seus ainda não entendem por que Moro deixou o cargo que o tornara mundialmente célebre para ir ser ministro da Justiça de Bolsonaro. Ainda mais em se tratando de um personagem tão discutido por suas declarações a favor da tortura e da ditadura, que mal suporta os diferentes e considera que os direitos humanos servem só para beneficiar os bandidos. Para ele, o importante são os “humanos direitos”. E nega que haja fome no Brasil.

O hoje ministro da Justiça já havia explicado aos seus, para tranquilizá-los, que sua intenção ao aceitar o ministério tinha sido a possibilidade de modernizar e reestruturar boa parte da legislação brasileira, moldando-a à existente nas democracias mais sólidas, como as dos Estados Unidos, Alemanha, França e Inglaterra.

À luz, entretanto, dos pouco mais de seis meses no Governo, Moro começa a se ver apanhado na teia de aranha que ele mesmo foi tecendo. O medo de seus amigos, começando por Dallagnol, é o que poderia ocorrer se, já no Governo, Moro pudesse constatar, por exemplo, que a corrupção contra a qual lutou durante anos existe também entre os membros da família do Presidente e poderiam chegar a alcançar o próprio Bolsonaro e sua esposa, Michelle, como bem expôs Flávia Marreiro em seu artigo de domingo passado neste jornal.

Moro, de fato, a quem Bolsonaro captou para seu governo como um troféu, já que uma das bandeiras de sua campanha era a batalha contra a corrupção e a defesa da Lava Jato, entendeu em seguida que se meteu num vespeiro. Que poderia servir ao presidente para conter as acusações de corrupção, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha, como é o caso de seu filho, o senador Flavio, mas que salpicam toda a família. Escândalo este que está cruzado por dois buracos negros: o assassinato da ativista social Marielle Franco e o misterioso destino do ex-PM Queiroz, que era amigo do presidente desde que o hoje senador Flavio tinha cinco anos, e que se suspeita que estivesse ligado aos milicianos assassinos da jovem vereadora negra.

Moro, no princípio, tentou minimizar as denúncias. Primeiro afirmou que ele agora já não é juiz e não pode intervir em processos, e que além do mais tais acusações de corrupção ainda não estavam claras. Bolsonaro se adiantou a ele e conseguiu do presidente do Supremo, Dias Toffoli, uma estratégia para que seu filho senador não pudesse continuar sendo investigado, algo que está levantando poeira. A pergunta seria: se o presidente já não precisar de Moro para parar as acusações contra sua família, para que continuar a protegê-lo, ainda mais quando poderia ser seu adversário na tentativa de reeleição em 2022?

Na fachada, Bolsonaro continua prestigiando Moro, sobretudo porque sabe que os seus seguidores mais radicais estão com o juiz-mito, e que perdê-lo significaria um fracasso em seu governo. Na prática, de algum modo já o abandonou. Por exemplo, não fez nada para conseguir que o COAF ficasse no Ministério de Justiça. Seria um instrumento poderoso nas mãos de Moro. E nada está fazendo para que o tão alardeado projeto revolucionário do ex-juiz para o combate à criminalidade e a reestruturação da Justiça fossem prioritários em sua aprovação no Congresso. O Presidente não moveu uma palha a seu favor nem conseguiu que tramitasse paralelamente à reforma da previdência. Mais ainda, tanto o Congresso como o Senado foram pouco a pouco aguando os pontos mais importante do documento, como por exemplo a detenção após a condenação em segunda instância.

O juiz dos sonhos de Bolsonaro, que ainda não sabemos ao certo por que se deixou enfeitiçar pelo capitão que certamente sabia quem era, se vê dia após dia deixado a sós com seus projetos, que poucos congressistas, muitos deles ainda enrolados com a Lava Jato, têm interesse em aprovar.

E o que faz Moro? Não sabemos se por medo do isolamento ou por uma estratégia que só ele conhece, é hoje talvez o ministro que mais defende seu chefe, inclusive quando este escandaliza o país com suas afirmações racistas, como a de alguns dias atrás contra os nordestinos. Moro não precisava sair em defesa do presidente e, entretanto, o fez inclusive dos Estados Unidos, onde estava de férias com sua família, desmentindo que o presidente tivesse algo contra os nordestinos.

Assim, Moro vai dia a dia vendo-se mais apanhado nessa perigosa teia de aranha de seus comportamentos, sem que possamos imaginar como poderá sair dela, e menos ainda de cabeça erguida.

Enquanto isso, Bolsonaro vai tomando gosto por mandar e começa a enquadrar e afastar de seu Governo até generais importantes, para dar a entender que agora já é o presidente da República, e não aquele capitão na reserva que ainda jovem foi expulso do Exército por sua conduta subversiva. Queria usar métodos violentos e até de caráter terrorista para defender os soldados que, segundo ele, ganhavam pouco. Chegou a ameaçar envenenar a água que abastecia o Rio de Janeiro.

Agora Bolsonaro quer deixar claro que está acima dos próprios generais. Não é difícil, portanto, imaginar que se necessário chutaria Moro. Por enquanto, já anunciou que a primeira vaga no Supremo será não para ele, como aparentemente havia prometido, e sim para alguém “terrivelmente evangélico” —um evangélico que crie terror no Supremo?

Quando Moro surpreendeu o país ao anunciar que deixava o cargo de juiz mais famoso do Brasil para ir com Bolsonaro, este jornal escreveu um editorial intitulado “Moro tira a máscara”, dando a entender que com sua decisão ficava mais claro que sua verdadeira vocação era, desde o começo, a política. E há quem vá além ao suspeitar que muitas de suas condenações foram direcionadas para preparar o caminho aos seus futuros sonho de poder político, começando pela de Lula, que o impossibilitou de disputar uma eleição presidencial que certamente teria vencido.

É difícil entrar no pensamento do ex-juiz da Lava Jato, ainda jovem e com não poucas ambições. O que fica cada dia mais claro é que, para cair nas graças do presidente, está virando seu melhor defensor, inclusive em momentos nos quais, pelo contrário, deveria ter a coragem de lhe dizer não e até deixar o Governo. Moro é evangélico e homem da Bíblia. Deve conhecer, por isso, a passagem de Lucas, 17,1, onde Jesus diz a seus discípulos: “É impossível que não venham escândalos, mas ai daquele por quem vierem!”. E também: “Ai de vós também, doutores da lei, que carregais os homens com cargas difíceis de transportar, e vós mesmos nem ainda com um dos vossos dedos tocais essas cargas” (Lc, 11,46).

A incógnita Moro continua aberta.


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