ALEX SOLNIK | Com Mourão a democracia corre menos riscos que com Bolsonaro


Começa a Operação Mourão
 (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

Alex Solnik, do Jornalistas pela Democracia, avalia que se o vice-presidente Hamilton Mourão assumisse definitivamente seria uma alternativa, pois "o risco de cair numa ditadura é muito maior com Bolsonaro". "Não numa ditadura imposta por patas de cavalo, como no passado, mas numa ditadura do pensamento único, de extrema-direita, que começa a tomar corpo e precisa ser barrada antes que se consuma", defende 

Alex Solnik é jornalista. Já atuou em publicações como Jornal da Tarde, Istoé, Senhor, Careta, Interview e Manchete. É autor de treze livros, dentre os quais "Porque não deu certo", "O Cofre do Adhemar", "A guerra do apagão" e "O domador de sonhos" 

8 de setembro de 2019

Por Alex Solnik, para o Jornalistas pela Democracia - Bolsonaro resistiu muito até passar o bastão ao seu vice, general Hamilton Mourão. Bateu o pé. Pretendia continuar no cargo enquanto estivesse até mesmo inconsciente, sob efeito de anestesia, na mesa de cirurgia do hospital.

Só recuou quando foi informado que se consumasse o gesto afrontaria a constituição e correria o risco de até mesmo perder o mandato.

Mas do que ele tem medo?

O primeiro a levantar suspeitas acerca de Mourão foi o filho Carlos. Mourão estaria interessado em matar seu pai. Como é improvável que ele tenha lido Shakespeare, o enredo parece ter sido criado na sua cabeça contaminada por milhares de horas e mortal kombat. Mas enquanto seu pai estiver no hospital não corre esse risco.

Há quem acredite que haja algum assassino em potencial em seu entorno e há quem tema que, se algo acontecer a Bolsonaro e Mourão assumir definitivamente, as coisas iriam de mal para pior.

Eu acho o contrário. O risco de cair numa ditadura é muito maior com Bolsonaro. Não numa ditadura imposta por patas de cavalo, como no passado, mas numa ditadura do pensamento único, de extrema-direita, que começa a tomar corpo e precisa ser barrada antes que se consuma. 

Nenhum golpe ou autogolpe se dá do dia para a noite. O de abril de 64 começou a ser tramado em 1954. Nenhum golpe de estado se dá sem a cooptação do Alto Comando das Forças Armadas. Nenhum golpe se dá sem apoio dos governadores.

Golpe precisa de um pretexto muito forte. É preciso convencer o público local e a comunidade internacional que ele é necessário, pois é sempre traumático.

Getúlio só conseguiu impor o Estado Novo porque ganhou de presente o Plano Cohen. O falso plano comunista de invadir o Brasil, produzido pelo capitão Olympio Mourão Filho a pedido do comandante em chefe das Forças Armadas. Entre uma invasão comunista e uma ditadura, era preferível a ditadura. 

Os generais de 64 alegaram, mais uma vez, o perigo comunista, colocaram a carapuça no presidente João Goulart. Acusação falsa, mas deu certo. Os brasileiros – e a Casa Branca - acreditaram que um latifundiário poderia vir a ser um novo Fidel Castro e deram sinal verde aos golpistas.

Os generais também tinham a seu favor o exemplo cubano. Há apenas cinco anos a revolução comunista derrubara, de fato, o capitalismo na ilha. Era preciso evitar que acontecesse no Brasil.

Ou seja: 1) os golpistas têm que convencer a população de que o país corre perigo; 2) somente dá golpe quem tem um plano de tomada de poder e de governo muito bem estruturados; 3) quem tem muito apoio no Alto Comando do Exército, da Marinha e da Aeronáutica e aprovação da maioria dos governadores; 4) quem consegue convencer os públicos interno e externo que o golpe é remédio para evitar um mal maior.

Mourão não tem como dar um golpe de estado, mesmo que quisesse porque não tem um bom pretexto, não tem plano de golpe nem de governo, não tem apoio e nem faria sentido provocar um trauma político desse tamanho numa economia já combalida.


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