ALEX SOLNIK | Quem com Moro fere, com Moro será ferido


Jogada de mestre: ao pagar fatura da eleição, Bolsonaro tira Moro da frente em 2022

"Bolsonaro tem que engolir Moro. Se o despachar ou pressionar demais será pior para ele. Moro está a cavaleiro na questão, como diziam os antigos. Tanto faz para ele: se ficar no ministério será bom para ele; se for demitido, será ainda melhor", constata o jornalista Alex Solnik. "Quem com Moro fere, com Moro será ferido", acrescenta

Alex Solnik é jornalista. Já atuou em publicações como Jornal da Tarde, Istoé, Senhor, Careta, Interview e Manchete. É autor de treze livros, dentre os quais "Porque não deu certo", "O Cofre do Adhemar", "A guerra do apagão" e "O domador de sonhos"

23 de setembro de 2019

Jogada de mestre: ao pagar fatura da eleição, Bolsonaro tira Moro da frente em 2022
Jogada de mestre: ao pagar fatura da eleição, Bolsonaro tira Moro da frente em 2022 (Foto: Marcos Corrêa/PR)

Por Alex Solnik, para o Jornalistas pela Democracia - Embora tenham muitas coisas em comum – a mania de afrontar a constituição, a ojeriza aos políticos, o falso moralismo, a truculência punitivista - os grupos de Bolsonaro e de Moro, ambos de inspiração integralista, representam dois estilos autoritários que não podem conviver pacificamente, por isso se digladiam o tempo todo em luta pelo poder.

  E a luta está só no começo.

  Bolsonaro agradeceu a Moro por ter impedido Lula de se candidatar - o que foi fundamental na sua vitória - com o ministério da Justiça, mas logo ao assumir deu-se conta de que o juiz de Curitiba era candidato à sua sucessão e agora trata de reduzir danos, fritando Moro à moda da casa, mas sem deixar queimar demais.

  Paranoico como é, Bolsonaro desconfia que pode cair na rede da Lava Jato. Já deve ter sido alertado pelos filhos. E motivos não faltariam para isso acontecer. Nem precedentes. A Lava Jato já destruiu Lula, Dilma, Aécio, Temer. E ninguém pode garantir que Bolsonaro não será o próximo.

  Mas não é fácil livrar-se de Moro. Quem pode sair queimado é o presidente. Se oprimir Moro demais poderá transformá-lo em vítima, o que vai reforçar sua candidatura (a de Moro) para 2022; se deixá-lo solto demais, Moro poderá ficar mais popular ainda do que já é – em relação a Bolsonaro.

  Outro motivo que impede Bolsonaro de se livrar de Moro é que vai parecer que o presidente é contra a Lava Jato, o que poderá ser a pá de cal em sua pretensão de se reeleger.  

  Bolsonaro tem que engolir Moro. Se o despachar ou pressionar demais será pior para ele. Moro está a cavaleiro na questão, como diziam os antigos. Tanto faz para ele: se ficar no ministério será bom para ele; se for demitido, será ainda melhor.

  Não sei se isso estava nos planos iniciais, mas à medida em que a Lava Jato e sobretudo Moro se tornaram poderosos, incensados pela grande imprensa e pela opinião pública e transformados em totens, a operação policial virou projeto de poder, com Moro de porta-estandarte.

  E todo projeto de poder tem por objetivo a presidência da República. 

  Em 2018, Moro ajudou a eleger Bolsonaro; em 2022, poderá atrapalhar sua reeleição.

  Quem com Moro fere, com Moro será ferido.   


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