PAULO MOREIRA LEITE | Vitória de Fernandez-Cristina mostra correção de rumo na América do Sul


Argentina, vitória eleitoral
 (Foto: Sputnik)

Ao lado da vitória de Evo Morales na Bolívia e do cerco popular a Sebastian Pinera, no Chile, a vitória da esquerda na Argentina indica que a América do Sul decidiu dizer não aos projetos imperiais de Washington, escreve Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia

28 de outubro de 2019

Paulo Moreira Leite é colunista do 247, ocupou postos executivos na VEJA e na Época, foi correspondente na França e nos EUA

A espetacular vitória de Alberto Fernandez-Cristina Kirchner na Argentina mostra que está em curso uma correção de rota à esquerda na América do Sul, após uma guinada passageira em direção a governos conservadores. 

Se Maurício Macri foi derrotado em primeiro turno, o que é sempre uma demonstração de força do lado vencedor, o prolongado cerco popular enfrentado por Sebastian Pinera em Santiago sinaliza o  esgotamento sem retorno de uma experiência conservadora iniciada em março de 2018. Pinera promete entregar todos os anéis ministeriais na esperança de não perder todos os dedos presidenciais.

Embora o governo de traição de Lenine Moreno tenha sido capaz de resistir a uma semana de insurreição das nações indígenas no Equador, à  frente de um prolongado periodo de prosperidade na Bolívia Evo Morales conquistou sua quarta vitória consecutiva em eleições presidenciais, reafirmando uma primeira liderança de longo curso na história do país.

Enfrentando dificuldades e pressões de toda ordem, o governo Nicolás Maduro resiste na Venezuela -- sua sustentação, hoje, é menos fraca do que em 1 de janeiro, data do primeiro entre vários golpes fracassados estimulados pela Casa Branca de Donald Trump.

(Ainda não falamos de AMLO, primeiro presidente de esquerda em oito décadas de política mexicana). 

Principal influência econômica na região após o Brasil e, de longe, a maior liderança no universo de língua espanhola, a troca de governo em Buenos Aires marca uma derrota dos projetos de recolonização imperialista do Continente.

Trata-se, para Washington, de impedir a consolidação de governos que, mesmo conservando imensas diferenças políticas e culturais entre si, já demonstraram uma reconhecida capacidade de articulação conjunta,  com lideranças capazes de preservar interesses e prioridades de povos e países numa etapa delicadíssima da economia mundial.

Num período no qual Washington e Pequim tomam posição na partilha de recursos naturais e outras fontes imensas de riqueza do planeta, a diplomacia representa uma atividade com chance de risco de risco e submissão -- ou de vitória e progresso. O projeto de Washington é erguer muros e construir um quintal da Patagonia ao Canal de Panamá.

Utilizando as duas linguagens permitidas pela luta política, a eleitoral e a mobilização de massas, a América do Sul disse não. 

Temporariamente à margem desse processo, aqui iniciado através de um golpe parlamentar, o Brasil de Bolsonaro está condenado a ser cada vez mais pressionado de fora para dentro, pela força e pelo exemplo dos vizinhos. A mudança de rumo nunca é  uma fatalidade, mas  um destino necessário e uma questão de tempo.

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