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São Gonçalo do Amarante - CE - Quarta-feira 02 Dezembro de 2020 - Ano: XIII - Edição: 4.427

MOISÉS MENDES | O fim do bolsonarismo


Apoio de Bolsonaro a Israel ameaça venda de carne aos países islâmicos
(Foto: REUTERS/Paulo Whitaker)

"Se puder, o bolsonarismo ficará décadas no poder e será aperfeiçoado", escreve Moisés Mendes, do Jornalistas pela Democracia. "Terá até um partido só dele, uma organização familiar, coisa que muitos dos ditadores do século 20 não tiveram. Mas uma hora, mesmo com uma democracia esfacelada, também o bolsonarismo institucionalizado terá de acabar", diz

13 de dezembro de 2019

Jornalista em Porto Alegre

O nazismo durou 12 anos. Franco impôs o terror aos espanhóis por um período três vezes maior, de 36 anos. A ocupação da França pelos nazistas prolongou-se por quatro anos.

A ditadura brasileira manteve-se por 21 anos. O salazarismo foi dono do poder em Portugal pelo dobro de tempo, 41 anos. O fascismo de Mussolini também durou 21 anos. O pinochetismo reinou por 17 anos no Chile.

Regimes autoritários raramente anunciam-se com discrição. São surpresas apenas aparentes. E mantêm-se como se fossem aberrações ou coisas naturais ou naturalizadas, mas podem acabar num sopro.

Figuras autoritárias, algumas transformadas em déspotas sanguinários, depois de eleições ou de golpes, sabem que um dia terão um fim. E o fim de alguém que racha um país ao meio e o mantém sob o controle da força é, invariavelmente trágico.

O consolo no Brasil (para eles) é que os militares foram para casa sob a proteção de uma anistia até hoje controversa. Pinochet deixou o governo e virou senador. Stroessner (que governou o Paraguai por 35 anos) fugiu para o Brasil.

Mas todos eles – com a exceção dos generais brasileiros – enfrentaram acertos de contas com suas vítimas e morreram como zumbis políticos e trastes humanos. Não há despedida pacífica para quem perseguiu e governou com medo. 

O bolsonarismo, dirão alguns, não segue o modelo de nenhum deles, porque é um governo eleito. Será que não segue?

Os fascistas foram fortalecidos na Itália pela força do voto em eleições parlamentares e assim viabilizaram o projeto de Mussolini de virar ditador. Subiram com o respaldo da “democracia”, mesmo que fraudada.

Hitler virou chanceler por via indireta, mas de um governo eleito, e só chegou ao cargo pelo peso do eleitorado de extrema direita. Stroessner participava de eleições e era ‘eleito’ sucessivamente. Ditadores diversos valeram-se de eleições como farsas. 

Bolsonaro, segundo alguns, participou de eleições normais. Daqui a alguns anos talvez se esclareçam, sem as sombras de proteção do Judiciário, as anormalidades, desde as fábricas de fake news e de difamação às verbas encobertas de campanha e outros desmandos.

Mas é preciso quer se esclareça e se puna, mesmo que alguns entendam não ser preciso, a articulação que tirou Lula da eleição. Bolsonaro, mesmo que a direita e a extrema direita neguem, não participou de uma eleição normal. E Bolsonaro não é um presidente normal.

A grande questão agora é: por quanto tempo ficará no poder? Bolsonaro ameaçou perseguir, expulsar do país ou matar (“na ponta da praia”) seus inimigos políticos. Aparelhou a estrutura de polícia com o juiz que condenou seu principal adversário.

Escalou como ministros sujeitos que perseguem professores, estudantes, índios, cientistas, gays, ambientalistas e artistas. Mandou os filhos ameaçarem com a volta da ditadura.

Bolsonaro deu emprego a 2.500 oficiais nos altos escalões do governo. Estimula policiais a atirarem sempre que se sentirem ameaçados. Tem relação comprovada com milicianos. Abriga cúmplices seguidores de um pilantra terraplanista.

No que então Bolsonaro é diferente dos que historicamente se sustentaram pela disseminação do terror, inclusive contra governantes de países da vizinhança?

A direita e boa parte dos liberais brasileiros (ah, os nossos liberais covardes) dirão que Bolsonaro é diferente. Irão repetir que a matança de pobres, negros e mulheres sempre existiu. Que ele fala de pau-de-arara em sentido figurado. E que ataca uma adolescente estrangeira ambientalista porque precisa defender a Amazônia dos interesses estrangeiros.

Fernanda Montenegro tem a reposta-síntese para os que relativizam o governo que potencializou e inspirou todos os ódios e preconceitos liberados pelo nosso mau-catarismo. Se pudesse, o bolsonarismo eliminaria hoje todos os seus inimigos, não só na área da cultura.

Se puder, o bolsonarismo ficará décadas no poder e será aperfeiçoado. Terá até um partido só dele, uma organização familiar, coisa que muitos dos ditadores do século 20 não tiveram.

Mas uma hora, mesmo com uma democracia esfacelada, mesmo que o Brasil esteja anestesiado e alienado, também o bolsonarismo institucionalizado terá de acabar. Pode ser num processo lento e doloroso, como pode ser num sopro.


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