PAULO MOREIRA LEITE | Diante do ataque ao Congresso, é bom lembrar do incêndio do Reichstag



"Há 87 anos, o incêndio criminoso do parlamento alemão abriu as portas para a ditadura de Hitler," escreve Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia. "Uma lembrança necessária num país onde um presidente de extrema direita espalha vídeos de ataque ao Congresso"

28 de fevereiro de 2020

Paulo Moreira Leite é colunista do 247, ocupou postos executivos na VEJA e na Época, foi correspondente na França e nos EUA
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Na noite de 27 de fevereiro de 1933 -- há exatamente 87 anos, portanto -- a humanidade foi vítima de uma das mais terríveis fraudes registrada por sua história política   -- o incêndio do Reichstag.

Você já ouviu falar o que aconteceu. Mas talvez não tenha reparado nas semelhanças que aproximam uma das grandes tragédias políticas do século XX de uma cena em curso no Brasil de Bolsonaro --  o ataque do Foda-se contra o Congresso brasileiro.

Há oito décadas, a partir das labaredas que consumiram o edifício do parlamento alemão, o partido nazista fabricou uma brutal  operação para suspender garantias individuais previstas pela Constituição de Weimar, abrindo caminho para a perseguição em massa aos comunistas e social-democratas. Menos de uma semana depois, a tragédia revelou-se a principal peça de propaganda para uma vitória eleitoral que consolidou a ditadura de Adolf Hitler.

O incêndio ocorreu exatamente uma semana antes da eleição que iria confirmar o futuro do nazismo. Poderia confirmar o resultado anterior, onde Hitler obteve uma vitória magra, que lhe permitiu ocupar o posto de chanceler mas dificultava a aplicação de medidas ousadas e brutais.  Ou poderia ampliar a força do nazismo. Não é difícil imaginar o que aconteceu -- em poucas horas.

Na medida em que fogo se espalhava, centenas de pessoas que correram ao local, em particular dirigentes do Partido Nazista. Entre eles, Herman Goering, militar, uma das principais lideranças do partido.

Hitler apareceu uma hora depois, as 22h30, e, num diálogo com o vice-chanceler Von Papen, antecipou uma operação que iria mudar o destino do país. "Isso é um sinal de Deus, Herr vice-chanceler! Se este incêndio, é obra de comunistas, como acredito, então devemos esmagar essa praga assassina com mão de ferro!". (Ian Kershaw, "Hitler").

Antes que qualquer investigação fosse iniciada, Hitler já dizia que "deputados comunistas deveriam ser enforcados na mesma noite". 

Na mesma noite, Hitler e Goebells, responsável pela propaganda, passaram pela redação do maior jornal nazista, para colocar sua versão sobre o incêndio no editorial e na primeira página. Era preciso garantir, desde o início, a sua versão da história. 

Já o dia seguinte, Hitler elaborou  um decreto de emergência, "Para a Proteção do Povo  e do Estado". Num único parágrafo, o documento revogava as liberdades individuais, inclusive de manifestação  e de imprensa, eliminando também o sigilo das comunicações -- por prazo indefinido. Provavelmente por 1000 anos.

"O caminho para a ditadura estava escancarado", define Kershaw. Convencido de que chegara "o momento psicologicamte correto para o confronto final" com os comunistas, Hitler alegava que não havia motivo para  perder tempo com "considerações jurídicas".

Os ataques violentos contra comunistas, social-democratas, sindicalistas e intelectuais, tiveram início em seguida. Muitos cidadãos "foram arrastadas para prisões improvisadas e selvagemente espancados, torturados e, em alguns casos, mortos". Em poucos meses, na maior região da Alemanha,   25 000 pessoas foram colocadas na prisão sem julgamento.

Centro da brutal ofensiva na propaganda nazista, o incêndio permitiu uma elevação previsível nos votos do partido de Hitler, embora não tenham garantido sua maioria. Ele Recebeu  43,9% dos votos, o que lhe garantia 288 das 647 cadeiras do parlamento. Apesar da campanha de  terror, comunistas e socialistas conseguiram 12,3% e 18,3% dos votos, números considerados espantosos naquela situação.

Mesmo sem garantir a "maioria absoluta", a eleição de 5 de março é considerada a "verdadeira 'tomada do poder'" pelo nazismo. Ela só foi possível num ambiente de desorientação e medo, que atingiu as camadas de eleitores menos politizados e instruídos. Assustada, desinformada, uma multidão que jamais havia tomado o caminho das urnas resolveu sair de casa para votar pela primeira vez, garantindo uma presença recorde de 88,8%, oferecendo ao nazismo o apoio de gente que nunca havia votado antes.

Como acontece em tantos episódios definitivos da história humana, as responsabilidades individuais sobre o incêndio -- quem provocou, por quais razões, quando  -- estão sujeitas a debate até hoje.

Após um julgamento com seis réus num tribunal nazista o operário holandes Maurice Van der Lobb, foi condenado a morte e degolado. Um deputado do PC alemão foi condenado a prisão perpétua. Outros quatro acusado  foram inocentados. Jamais se soube quem era o mandante, por ordem de quem e até hoje restam questões obscuras e dúvidas pertinentes.

A manipulação política da tragédia do Reichstag, contudo, é um episódio que divide a história humana e marca uma das maiores derrotas da democracia.

Oitenta e sete anos depois, no Brasil de 2020,  onde um presidente de extrema-direita espalha vídeos que promovem ataques ao Congresso, um dos poderes sagrados da República, a compreensão do incêndio que horrorizou o século XX serve como advertência a todos interessados na defesa dos direitos e liberdades. 

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