HELIO DOYLE | Acuado, Bolsonaro faz o que sempre fez


(Foto: Carolina Antunes)

"Para atingir seus objetivos políticos, Jair Bolsonaro e seus seguidores sempre recorreram a mentiras e notícias falsas, às provocações e à polarização. Daqui para a frente não será diferente", escreve o jornalista Helio Doyle
8 de abril de 2020, 22:39 h Atualizado em 9 de abril de 2020, 00:26

Hélio Doyle é jornalista, foi professor da Universidade de Brasília e secretário da Casa Civil do governo do Distrito Federal 
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O presidente Jair Bolsonaro arriscou tudo, e está perdendo. Sua postura irresponsável e politizada diante da pandemia que assola o planeta levou-o ao isolamento político, a sofrer queda de popularidade e a ser vítima de escárnio em todo o mundo. Difunde-se, inclusive, a hipótese — não suficientemente comprovada ainda — de que não mais governa de fato, sendo tutelado por ministros militares que têm gabinete no Palácio do Planalto.

Qualquer presidente razoavelmente inteligente teria feito o contrário do que fez Bolsonaro: veria na pandemia a oportunidade de se impor como liderança no combate ao vírus e na defesa da população diante das inevitáveis agruras econômicas. Um político experiente faria o discurso de unidade de toda a nação para enfrentar o “inimigo” e, após derrotá-lo, reconstruir o país. Tomaria imediatamente as medidas necessárias, nos campos sanitário, social e econômico.

O deputado Rodrigo Maia, presidente da Câmara, disse que Bolsonaro, ao contrário do que pensam, é inteligente. Não, não é, ao contrário do que pensa ou diz pensar Maia. O presidente da República tem dado demonstrações cotidianas de falta de inteligência. Isso, porém, não quer dizer que Bolsonaro seja bobo, não pense politicamente e não tenha um projeto de poder. Tem, ainda que, delineado sob inspiração do guru Olavo de Carvalho, seja um projeto rasteiro e simplista, sem qualquer sofisticação intelectual. Mas é um projeto, factível e realizável.

A atuação de Bolsonaro diante da pandemia é coerente com esse projeto: mantém fortemente unida e fiel a parcela do eleitorado que lhe assegura a passagem para o segundo turno em 2022 ou, se as circunstâncias favorecerem, lhe possibilita dar um autogolpe para acumular mais poderes. É para esse segmento, que vai da classe A+ à E-, da alta classe alta aos extremamente pobres, que Bolsonaro fala e age. Não lhe interessam consensos, concessões e coalizões. É sempre “nós” contra “eles”.

Primeiro, a política

Ao ser surpreendido pela pandemia, Bolsonaro pensou primeiro em seu projeto político. Por isso nunca deu prioridade à defesa sanitária da população diante do vírus, mas aos problemas que teria depois, em um ambiente de recessão econômica, talvez mesmo de depressão. Se seu ídolo Donald Trump minimizava os perigos do coronavírus, assim como faziam o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson e outros chefes de estado e de governo, por que ele seria diferente? 

Como alguns governadores que considera adversários se adiantaram ao governo federal e tomaram medidas de distanciamento social preconizadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e por autoridades médicas e sanitárias, Bolsonaro tomou uma decisão política: pregar abertamente e agir pessoalmente contra isso, mobilizando seus seguidores. Também porque, no entendimento equivocado dele, o distanciamento dificultaria ainda mais a retomada da economia depois da pandemia.

Não foi só por defender o distanciamento social que o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, se tornou um estorvo para Bolsonaro. Foi também porque Mandetta não estava respaldando o uso indiscriminado da cloroquina no tratamento de pacientes que não apresentam sintomas graves. O presidente da República, agindo como lobista do produto e desconhecendo as pesquisas que vêm sendo feitas em vários países, passou a defender incondicionalmente a cloroquina, por ele apresentada — até em reunião do G-20 — como solução para combater o vírus sem a necessidade de isolamento.

A partir da fala de Bolsonaro em rede nacional e do passeio de domingo em Brasília, cresceram o número de pessoas nas ruas e as probabilidades de aumentar o número de infectados — e de mortos. Bolsonaro, que não é inteligente, mas não é bobo, vê a tragédia em vários países e a guinada de Trump, Johnson e outros líderes diante das evidências que antes negavam, e sabe que poderá ser responsabilizado pelas mortes por causa de suas posturas irresponsáveis e levianas. 

Por isso, para não se isolar ainda mais, aceitou a permanência de Mandetta no cargo, desde que ele fizesse concessões nas questões do distanciamento e do uso da cloroquina. O ministro aceitou, mas negociou os termos. Daí a retirada do distanciamento em função da disponibilidade da rede de saúde e a declaração de que a cloroquina pode ser usada em casos leves, a critério do médico — como já acontecia.

Pois a cloroquina é, agora, a pretensa tábua de salvação de Bolsonaro. Seus seguidores e robôs já difundem a versão de que ele foi pioneiro na defesa da substância que, finalmente liberada, impedirá as mortes de mais pessoas. Segundo os bolsonaristas, Mandetta e os comunistas — leia-se: todos os que não são bolsonaristas — são os culpados das mais de 500 mortes já ocorridas, por terem impedido o uso do remédio miraculoso.

Não interessa a eles que tudo isso seja mentira. Com seu projeto político ameaçado pelo avanço da pandemia e pelas limitadas e insuficientes medidas de proteção aos cidadãos e às empresas, Bolsonaro está acuado. Para atingir seus objetivos políticos, ele e seus seguidores sempre recorreram a mentiras e notícias falsas, às provocações e à polarização. Daqui para a frente não será diferente.


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