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São Gonçalo do Amarante - CE - Segunda-feira 26 de outubro de 2020 - Ano: XIII - Edição: 4.391

Le Monde maior jornal francês: Bolsonaro cada vez mais isolado frente à gestão da crise sanitária


(Foto: Isac Nobrega - PR)

Clima insalubre prevalece nas mais altas esferas do Estado, com o presidente de extrema direita tendo perdido o apoio de quase todos os governadores do país

5 de abril de 2020

Por Bruno Meyerfeld, no Le Monde. Tradução: Sylvie Giraud - De repente, Jair Bolsonaro tentou assumir o papel de um chefe de Estado. “Estamos enfrentando o maior desafio de nossa geração. Minha preocupação sempre foi salvar vidas”, disse ele ao país, solene, na terça-feira, 31 de março, em rede nacional ao país. Discurso consensual, em tom surpreendentemente calmo e ponderado: o líder de extrema direita parecia enfim abordar a crise do coronavírus em sua real dimensão. “Reafirmo a importância da colaboração e a necessária união de todos, em um grande pacto pela preservação da vida”, acrescentou, querendo mostrar-se unificador como nunca antes havia sido.

O discurso pegou a classe política de surpresa. “Em qual presidente da República devemos acreditar?” Perguntou o governador de São Paulo, João Doria. De fato, há três semanas que Jair Bolsonaro vem se esforçando em minimizar a gravidade da epidemia (que matou 241 pessoas no Brasil), qualificando-a como uma “gripesinha”. Ele, em todo caso, não correria risco algum (“com meu passado de atleta, se estivesse contaminado, não precisaria me preocupar”), e o brasileiro ainda menos: “nunca pega nada, pula em um esgoto, nada, sai...e nada acontece com ele”, afirmou o presidente.

“Alguns vão morrer? Sim, claro. Sinto muito, mas isso é a vida. Você não pode parar uma fábrica de automóveis porque há mortes nas estradas todos os anos”, disse ele, opondo-se ao confinamento ou fechamento de atividades econômicas não essenciais, que foram decretadas por vários Estados. No domingo 29 de março, o presidente, em desprezo total das regras sanitárias, até se deu ao luxo de sair do palácio da Alvorada para “falar com o povo” e visitar vários comércios que permaneceram abertos em Brasília. Publicados nas redes sociais, os controversos vídeos da visita foram rapidamente excluídos pelo Twitter, Facebook e Instagram.

“Ele está sozinho, perdido em seu labirinto”

Então, em quem devemos acreditar? No Doutor Jair ou no Mister Bolsonaro? Na sexta-feira, o líder de extrema direita finalmente voltou ao seu estilo natural chamando a imprensa de “abutre”, argumentando que o Brasil “não suporta ficar dois ou três meses parado” e comparando o vírus a uma simples “chuva”, que simplesmente “molhará 70% [da população].”

Retomando seu discurso populista, muitas vezes insano, Jair Bolsonaro consegue remobilizar sua base eleitoral, afeita às teorias conspiratórias. Mas suas reviravoltas são antes de tudo um sinal do clima deletério que prevalece nas altas esferas do Estado. Assim, a pandemia veio furar um abscesso purulento, que se infectava mês a mês desde que chegou ao poder. “O que está acontecendo hoje é mais do que um novo episódio: é uma crise institucional”, disse Fernando Limongi, cientista político da Universidade de São Paulo (USP). 

“É fato, todas as autoridades constituídas estão em conflito com o presidente. Ele está sozinho, perdido em seu labirinto”, acrescenta o pesquisador. Bolsonaro que já estava em guerra aberta contra seu parlamento, conseguiu agora alienar de si 24 dos 27 governadores estaduais, que assinaram uma ácida carta de protesto. Por seu lado, o sistema judiciário proibiu o governo de transmitir um vídeo de propaganda (“O Brasil não pode parar”) denunciando as medidas de confinamento e vários juízes indicaram que se oporão a qualquer medida de reabertura do comércio que venha se contrapor à diretiva das autoridades locais.

Contestado todas as noites por panelaços nas principais cidades, o presidente também é censurado pelos principais grupos que o levaram ao poder: a famosa aliança dos “BBBs”: proprietários de terras (“bois”), evangélicos (“Bíblia”) e militares (“balas”). “Tudo é recuperável, mas só para os vivos”, trovejou o deputado Alceu Moreira, líder do lobby do agronegócio no Parlamento, apoiado pela ministra da Família, Damares Alves. Pastora pentecostal ultraconservadora, ela fez um apelo para que sejam respeitadas as medidas de distanciamento social. O combate ao vírus é “a missão mais importante da nossa geração”, disse, por sua vez, o general Edson Leal Pujol, comandante do Exército brasileiro.

“De armas na mão” 

Pior: Bolsonaro é desafiado dentro de seu próprio governo. Nenhum peso pesado, nem o Vice-presidente Hamilton Mourão, nem o popular Ministro da Justiça Sergio Moro, nem o da economia Paulo Guedes, vieram a público para defendê-lo. Luiz Henrique Mandetta, médico formado e Ministro da Saúde, defende as recomendações da OMS. “Estamos prontos para o pior cenário, com caminhões do exército carregando corpos pelas ruas ao vivo na Internet?”, teria ele lançado sem piscar ao o presidente, no sábado 28 de março, durante uma reunião de crise muito tensa, segundo o jornal Estadão. Em sua gestão da crise, Jair Bolsonaro parece ser apoiado, apenas por seus três filhos, discípulos de Olavo de Carvalho - astrólogo delirante e guru da extrema direita que não acredita na própria existência do coronavírus.

Ignorando o discurso presidencial, os ministros estão se mobilizando. Plano de apoio à economia, compra de 5 milhões de testes e 200 milhões de máscaras cirúrgicas, construção de um centro hospitalar no Rio, mobilização de 18.000 militares ... “Os adultos estão no trabalho e Bolsonaro, desesperado, se isola, afirma o economista Joel Pinheiro da Fonseca, autor de uma coluna no jornal Folha de São Paulo. Se ele cai ou permanece, não importa. Já não é nada mais do que uma grotesca peça decorativa.”

Mas Bolsonaro teria realmente dito sua última palavra? Um impeachment em meio a uma pandemia parece pouco provável uma vez que o Parlamento já está tendo dificuldades de se reunir em quórum para aprovar leis de emergência. Uma coisa é certa: No árido planalto de Brasília, a direção do vento mudou. “Durante a crise, Bolsonaro será ignorado”, disse Fernando Limongi. “Mas cada qual já está de armas na mão. A crise constitucional está pronta e não há como prever suas consequências.”


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