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São Gonçalo do Amarante - CE - Domingo 27 de setembro de 2020 - Ano: XII - Edição: 4.361

EMIR SADER | Bolsonaro e militares levam o Brasil a epicentro mundial da pandemia


Ministério da Saúde, Eduardo Pazuello e militares
(Foto: ABr)

"Caso fracassem, os militares no ministério da saúde têm que se demitir, renunciando às responsabilidades que hoje assumem". escreve o cientista político Emir Sader

23 de maio de 2020

Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros
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Uma dimensão notável da pandemia que nos afeta é revelar a grande quantidade de extraordinário pessoal da saúde pública – médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem -, na linha de frente, lutando para proteger as vítimas. Centenas deles já morreram nessa luta.

Por outro lado, os debates públicos revelam a qualidade e a quantidade do pessoal das universidades públicas e dos centros de pesquisa públicos, presentes em todos os órgãos da mídia e nos textos de análise da pandemia.

No entanto, Bolsonaro afirma que “os civis fracassaram”, como justificativa para apelar a militares para dirigir o ministério da saúde e ocupar, já com algumas dezenas de militares nos cargos mais importantes. Do conjunto de mais de 3 mil militares no governo, cerca de 20 se situam já no ministério da saúde, incluído no cargo de ministro.

Bolsonaro e os militares assumem a responsabilidade na condução da política governamental sobre a pandemia e sobre os graves efeitos que ela tem sobre o Brasil. O país se tornou, na falta de condução governamental e na falta de prioridade que o tema deveria ter, no segundo país do mundo com mais vítimas da pandemia e no novo epicentro mundial do coronavírus. Não se vê nenhuma política, nenhum plano de ação, nenhuma prioridade e nenhuma atenção especial do governo no atendimento da pandemia.

Nomear militares para dirigir o ministério da saúde em plena pandemia é um tapa na cara de todos os profissionais de saúde no Brasil. Um presidente que nunca reconheceu o papel deles no atendimento da pandemia, que não dedica recursos para que eles se protejam e exerçam suas funções em melhores condições, os desconhece totalmente, despreza o esforço que eles desenvolvem, nomeia a militares, sem nenhuma qualificação, para se ocupar da responsabilidade na condução da política governamental sobre a pandemia.

E o que esses militares fazem? Nada, absolutamente nada. Quem está no cargo de ministro da saúde chega a apelar para a reza, na falta de capacidade de propor medidas. O ministério divulga, agora de maneira incompleta e deformada, o balanço das vítimas do dia. Sem nenhuma análise dos dados e, menos ainda, sem qualquer medida para se contrapor ao crescimento acelerado das vítimas. 

Como consequência da subestimação da pandemia por parte o presidente, da entrega do ministério da saúde a militares leigos, sem nenhuma qualificação na área da saúde, o Brasil tornou-se a maior preocupação mundial. Mesmo nos Estados Unidos, que têm vítimas em muito mais quantidade, já se revela uma contenção da curva de vítimas, com grande quantidade dos estados normalizando seu funcionamento. Até mesmo em Nova York, a cidade que evidenciou o pior resultado, já há resultados positivos.

Enquanto que, no Brasil, todos os índices são negativos, até porque não há nenhuma medida para conter essa expansão. Se produz já um verdadeiro genocídio de brasileiros. Rapidamente o número de mortos chegou a 800, reproduziu essa quantia por alguns dias, até chegar a mil mortos e mais, por dia.

Nenhuma reação do presidente, nem do ministro da saúde. O presidente considera que só chegando ao massacre de 70% dos brasileiros com o vírus, se poderia gerar uma limitação, critério que nenhum outro país do mundo adota. Seria uma chacina ter mais de 100 milhões de brasileiros com o vírus, dos quais uma porcentagem de 5 ou 6% morreriam.


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