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São Gonçalo do Amarante - CE - Sexta-feira 04 Dezembro de 2020 - Ano: XIII - Edição: 4.429

EMIR SADER | O que será de Bolsonaro sem Trump?

(Foto: KEVIN LAMARQUE)

"Como o trumpismo mostra seus limites, a partir do momento em que se torna governo e vê seu discurso submetido à desmistificação a partir da realidade, a derrota de Trump é extremamente grave para o presidente brasileiro", escreve o sociólogo Emir Sader sobre as eleiçoes dos EUA

7 de novembro de 2020

Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

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Bolsonaro foi eleito, de forma fraudulenta, pelas necessidades imperiosas da direita brasileira de impedir o retorno do PT ao governo do Brasil. De forma, em parte similar, à necessidade da direita norte-americana de derrotar os democratas em 2016, dois anos antes da eleição de Bolsonaro no Brasil.

Mas Bolsonaro aderiu ao trumpismo, ao estilo e à performance de Trump, para construir seu discurso e projetar sua imagem de novo líder da extrema direita no Brasil. Seu governo e seu discurso assumiram o tom das agressões aos meios de comunicação - considerados seus inimigos, - assim como ao Congresso e ao Judiciário. Negacionista da ciência, dos movimentos sociais, da democracia e dos direitos humanos, com linguagem agressivo.

Bolsonaro teve um momento de auge no seu segundo ano de governo, até que entrou em nova crise, ainda antes da derrota de Trump. Mas, agora, sem seu grande líder e inspirador, além de referência da sua política internacional, o que será de Bolsonaro sem Trump?

Para Bolsonaro é um golpe muito duro, pela derrota do estilo de governo de Trump, -um dos poucos presidentes norte-americanos a não ser reeleito. Sua primeira reação poderá ser a consolidação do pragmatismo que ele já começou a trilhar, baixando o tom ideológico e fundamentalista do seu discurso, consolidando suas alianças com o Congresso e o Judiciário.

Com um novo governo em Washington, já é possível saber os temas em que prioritariamente o governo brasileiro vai sofrer pressões fortes: relações exteriores, meio ambiente e direitos humanos. No tema da Amazônia, já é possível ver o batido argumento da defesa da soberania nacional, denunciando a cobiça norteamericana sobre a Amazônia.

Mas isso não terá maior efeito. Já se cogita do deslocamento do ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, para outro setor do governo. O ministro de relações exteriores, Ernesto Araújo, também dificilmente seguirá no cargo, além de mudanças no ministério da cidadania, a cargo das questões de direitos humanos.

O ministro de relações exteriores havia assumido, antes das eleições norte-americanas, que o Brasil se reivindicava como um “pária”. Mas uma coisa é ser pária com os Estados Unidos, outra é sê-lo com governos isolados e sem nenhum prestígio internacional. É provável que o governo brasileiro mude sua postura externa, inclusive nos organismos internacionais e nas relações com os países vizinhos.

Bolsonaro já disse, em um dos tweets destes dias, que há uma tendência de fortalecimento da esquerda na América Latina, alertando de que o fenômeno pode chegar no Brasil. O governo brasileiro demorou, mas saudou o novo presidente da Bolívia. Consciente disso, ele deve baixar o tom em relação à Argentina, não necessariamente em relação a Cuba e à Venezuela.

O vice-presidente brasileiro, Hamilton Mourão, tentou amainar os efeitos da deterioração previsível nas relações com os Estados Unidos, alegando que as relações do Bolsonaro e dos seus filhos com Trump seriam relações pessoais, mas que ele espera que a relação de Estado a Estado se mantenha, com os interesses fundamentais das duas partes sendo preservadas. Os acordos econômicos assinados recentemente entre os governos dos Estados Unidos e do Brasil podem ser revistos, assim como outros acordos, conforme a atitude concreta que o governo Biden tenha em relação ao Brasil. De imediato, a reinserção dos Estados Unidos nos organismos multilaterais também condicionará o isolacionismo do governo brasileiro nesses organismos.

Porém, o maior baque para o Bolsonaro é a constatação de que o trumpismo fracassou como forma de governo, não permitiu a reeleição - objetivo fundamental do presidente brasileiro. Difícil saber como Bolsonaro vai assimilar esses efeitos. Se vai buscar alguma explicação aleatória, retirada do próprio discurso do Trump – como o de que houve fraude na sua derrota -, como já aparece em um dos tweets do presidente brasileiro ou se vai fazer como se nada tivesse acontecido, pela dificuldade de abandonar o trumpismo, que está no cerne mesmo do Bolsonaro.

De qualquer forma, como o trumpismo mostra seus limites, a partir do momento em que se torna governo e vê seu discurso submetido à desmistificação a partir da realidade, a derrota de Trump é extremamente grave para o presidente brasileiro. A transformação da eleição em referendo sobre o Trump deu certo e deve ser o caminho que a oposição brasileira trilhe para derrotar aqui também o trumpismo de Bolsonaro.

Mas, por enquanto, em solidariedade com seu aliado, Bolsonaro afirma que não reconhecerá a vitória de Biden, se Trump acionar o Judiciário. E, pateticamente, confessou: “A esperança é a última que morre”. Mas conforme avançam as apurações das eleições norte-americanas, corre a contagem regressiva para a vida difícil do Bolsonaro sem o Trump.

Brasil 247

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