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São Gonçalo do Amarante - CE - Domingo 25 de Julho de 2021 - Ano: XIII - Edição: 4.661

PAULO MOREIRA LEITE | O que se faz com presidente com 66% de reprovação?

Manifestações por Fora Bolsonaro tomam o Brasil na manhã do 19J

"Na medida em que o impeachment se mostra inviável, cresce a ideia de uma renúncia negociada", escreve Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia

25 de junho de 2021

Paulo Moreira Leite é colunista do 247, ocupou postos executivos na VEJA e na Época, foi correspondente na França e nos EUA

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Marginalizado por Jair Bolsonaro, que faz questão de exibir a desimportância do vice-presidente nas decisões de seu governo, Hamilton Mourão ensaia uma nova aparição na cena política, em mais um sinal que confirma a  gravidade da crise enfrentada pela República.

A sombra de Mourão cresce na proporção direta em que ganha corpo a convicção de que Bolsonaro pode se tornar incapaz de chegar ao fim do mandato e setores cada vez mais amplos da classe dominante já não escondem a compreensão de que precisam dar um jeito de  livrar-se dele.

Essa é a mensagem da mais recente pesquisa Idec, retrato sem retoques de um presidente inviável: reprovado por 66% da população, ruim e péssimo para 50%, diz levantamento divulgado hoje.

Diante da convicção estabelecida de que a proposta de impeachment seria um caminho fechado em função da fidelidade -- até agora invencível --  de Artur Lira a Bolsonaro, o desastre presidencial tem inspirado pedidos de renúncia, um deles assinado por advogados renomados, outro pela ABI, reconhecida entidade da luta democrática. Mas também se ouve uma proposta engenhosa.

"Bolsonaro pode ser renunciado", especula um estudioso das crises político-militares.

Como sempre, a ideia é muito mais fácil de imaginar do que executar. Parece impensável diante da personalidade que Bolsonaro costuma exibir em público.

Talvez se revele menos difícil do que parece, porém. A ideia é que, diante do dossiê que envolve a famiglia, o debate não se limita aos fatos em si -- mas envolve o uso que se pode fazer deles. Podem permanecer bem guardados como aconteceu até aqui, quando Bolsonaro  carregava uma perspectiva de poder -- único alimento real da política -- e havia pouco interesse em causar constrangimentos no círculo presidencial.

Ou podem servir como base para se negociar uma saída, proposta típica desses momentos em que velhos amigos começam a mudar de lado -- como se vê hoje nas rodas de empresários, nas manchetes dos telejornais, em toda parte.

A iniciativa também envolve aquele fator político que os estudiosos com maior intimidade no governo definem como Partido Militar, esse coletivo fardado identificado como a força oculta que acompanha e protege Bolsonaro, sendo responsável pela sustentação de uma candidatura originalmente nanica como tantas outras.

Foram recompensados em aposentadorias, duplo salário e, acima de tudo, poder político. Quinze dos 17 generais quatro estrelas que ocupavam o Alto Comando do Exército em 2017 assumiram ministério ou postos de primeiro escalão.

Cada vez mais distante de Bolsonaro, Mourão é um quatro estrelas do Partido Militar.

Em 2015, Mourão recebeu uma punição de pai-para-filho depois de fazer um discurso de natureza golpista, engordando a maré anti-democrática que, poucos meses depois, derrubou Dilma sem crime de responsabilidade.

Aprovada por 7 votos a 4, a suspeição de Sergio Moro tem o significado de remorso numa corte que, em 2018, tirou os direitos constitucionais que teriam permitido a Lula disputar a presidência, então como favorito.

Em 2021, só é difícil não enxergar o ambiente de catástrofe no pais. Mesmo depois de atravessar a barreira dos 500 000 mortos pela pandemia não se enxerga nenhum horizonte de melhora a frente.

Nessa conjuntura, Bolsonaro tornou-se um risco para boa parte daqueles que conspiraram para que fosse capaz de chegar ao Planalto. Sua permanência no  Planalto é, em si, um obstáculo  a construção de uma candidatura viável para enfrentar Lula em 2022.

Este é, não custa lembrar, o fato determinante das conversas de hoje.

É aqui que pode crescer o caminho para que Bolsonaro seja renunciado -- palavra que não existe mas todos entendem o que significa.

A indefensável negociata da vacina indiana funciona como um novo argumento nesse caminho.

Alguma dúvida?

Brasil 247

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