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São Gonçalo do Amarante - CE - Domingo 15 de Maio de 2022 - Ano: XIV - Edição: 4.956

RIBAMAR FONSECA | Novela FHC-Mirian já perde audiência


O novelão saiu do ar sem provocar nenhum dano ao galã oitentão. Seria esse o último capítulo, insosso, desse dramalhão?


Por: Ribamar Fonseca | 25/02/2016

As denúncias da jornalista Mirian Dutra, de que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso lhe mandava dólares através da empresa Brasif, baseada nas ilhas Caymann, e pagou dois abortos durante o tempo em que teve uma relação extra-conjugal com ele, já caiu no esquecimento da mídia. Diante disso, FHC, que passou alguns dias acuado pelas acusações da ex-amante, já se sentiu encorajado a continuar criticando o governo e a pregar o golpe. Em recente entrevista ele disse: "Quase tudo o que construímos está sendo destruído. A união entre incompetência e corrupção levou o Brasil às cordas. Mas o Brasil é forte e vai sair das cordas e nós vamos voltar a governar o Brasil". Face a essa declaração, pergunta-se: o que foi mesmo que ele construiu? Alguém sabe responder? O Plano Real, a única realização que os tucanos sempre apresentam, não vale, pois não foi obra do governo dele, mas do governo de Itamar Franco.

Em matéria de cinismo FHC é imbatível. Ele sabe, como de resto todo mundo, que dilapidou o patrimônio nacional, entregando nossas estatais e riquezas naturais ao capital estrangeiro a preço de banana. Ele sabe que subornou deputados para a aprovação da Emenda da Reeleição. Ele sabe que impediu todas as investigações da Policia Federal sobre corrupção no seu governo e abafou todas as tentativas no Congresso para instalação de Comissões Parlamentares de Inquérito destinadas a investigá-lo. Ele sabe que deixou o país com uma inflação de dois dígitos, as dívidas multiplicadas e as reservas quase no fundo do tacho. A única verdade que disse nessa entrevista é aquela de que o Brasil é maior do que tudo isso e sem dúvida vai sair do sufoco. Agora, quanto a voltar a governar o país só se for por meio de um golpe, que estão desesperadamente lutando para conseguir, porque através das urnas está muito difícil.

O fato é que o ex-presidente tucano tem conseguido, desde o seu governo, manter-se sob as graças da Grande Mídia, que se esforça para preservá-lo contra qualquer fato desabonador, divulgando a notícia discretamente, quase obrigando o leitor a utilizar lupa para lê-la, ou simplesmente ignorando-o. Além disso, também caiu nas boas graças de setores do Poder Judiciário, do Ministério Público e da Policia Federal, que fazem vista grossa para as graves denúncias recentemente feitas por delatores contra ele. O ex-diretor da área Internacional da Petrobras, Nestor Cerveró, por exemplo, afirmou a investigadores da Lava Jato que a compra da empresa argentina Pérez Companc (PeCom) pela Petrobras, por US$ 1,02 bilhão, em julho de 2002, "envolveu uma propina ao governo FHC de US$ 100 milhões". Ele nem precisou jurar inocência para evitar ser investigado. Bastou dizer, em nota, que as afirmações eram "vagas" e que "sem especificar pessoas envolvidas, servem apenas para confundir e não trazem elementos que permitam verificação". Já imaginaram se essa acusação fosse feita a Lula? O mundo viria abaixo e o ex-presidente operário estaria preso.

A acusação de Mirian Dutra de que ele usou a Brasif S.A. Exportação e Importação para lhe enviar dinheiro a Barcelona, onde estava exilada desde a descoberta da gravidez do filho dele, também não mereceu a menor atenção dos diligentes procuradores e policiais. Ele também não precisou negar veementemente, como faria qualquer pessoa inocente. Bastou dizer: "É invenção, não sei de quem. São coisas menores. Estou preocupado com o Brasil". Assim como no caso da propina de 100 milhões de dólares, conforme acusação de Cerveró, a denúncia da jornalista também foi ignorada, solenemente, pelos "caçadores de corruptos", segundo classificação de uma revista americana. Até o ministro da Justiça, Eduardo Cardozo, preferiu não incomodar o ex-presidente tucano com essas "bobagens". Nesse ponto FHC mostrou mais competência do que Dilma. Ele impediu qualquer investigação ao seu governo, tanto por parte da Policia Federal quanto do Congresso Nacional. E continua imune.

Além da blindagem, o ex-presidente tucano também conta com a defesa canina de alguns colunistas, como Ricardo Noblat, do Globo, e Eliane Cantanhede, da "Folha". Noblat criticou a colega, acusando-a de ter se exilado na Europa de livre e espontânea vontade depois da descoberta da sua gravidez, ao mesmo tempo em que questiona a sua reclamação de que trabalhou pouco: "Por que continuou recebendo salário da Globo sem pegar no pesado?". Quem responde a Noblat é Luiz Carlos Azenha, com outra pergunta: "Por que a Globo pagou 7 mil dólares mensais a uma correspondente que não trabalhava?". Ainda na defesa do jornal em que trabalha, acusado de esconder a notícia do filho bastardo de FHC, Noblat saiu-se com esta: "A imprensa poderia ter publicado, sim, que os dois namoraram durante seis anos. Mas a imprensa brasileira sempre evitou falar da vida privada de homens públicos". Desde que não seja a vida privada de Lula, faltou dizer, porque esta foi escancarada e escandalizada.

Por sua vez, a colunista Eliane Cantanhede, que já aborda a questão da cassação da presidenta Dilma Rousseff pelo TSE como fato consumado, preferiu responsabilizar o PT pela denúncia de Mirian Dutra, segundo ela, para desviar o foco do massacre a Lula. "A sua entrada em cena e o que ela diz embaralham o jogo político, desviam o foco do tríplex, do sítio, dos filhos e da venda de medidas provisórias e reforçam a estratégia do PT", ela disse em sua coluna. Eliane tem razão: o PT é culpado de tudo o que acontece de ruim – é culpado pelas chuvas intensas que provocam enchentes; é culpado pela seca que castiga o sertão; é culpado pelos tornados que destruíram cidades no Sul; é culpado pelo rompimento da barragem do Fundão, em Minas, que causou 17 mortes e destruiu extensa área; é culpado pela proliferação do mosquito Aedes aegypti, embora o tucano José Serra tenha demitido 6 mil mata-mosquitos quando ministro da Saúde do governo FHC; é culpado pelo aquecimento global, etc, etc. Esse pessoal continua achando que o povo brasileiro é imbecil.

Entre os ingredientes pitorescos do novelão estão personagens que já morreram e outros que continuam muito vivos e até uma funcionária-fantasma do Senado, "cunhada" de FHC, irmã de Mirian: Margrit foi empregada no Senado pelo "cunhadão" FHC quando ainda na Presidência da República, mas nunca cumpriu expediente. O senador José Serra, em cujo gabinete ela é lotada, apresentou uma desculpa candente para justificar a sua ausência do Senado: ela está fazendo para ele um "trabalho sigiloso" em sua própria casa. Uma mentirinha ao estilo tucano. O colunista Ricardo Noblat, no entanto, que se caracterizou como porta-voz dos interesses do Globo nesse caso específico, noticiou que o fantasma já foi exorcizado. E observa-se agora que, sem audiência, o novelão saiu do ar sem provocar nenhum dano ao galã oitentão. Seria esse o último capítulo, insosso, desse dramalhão? É bem possível, no entanto, que o seu autor oculto – o destino – esteja preparando um final bem mais interessante. O tempo dirá.


Brasil 247

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