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São Gonçalo do Amarante - CE - Sábado 21 de Maio de 2022 - Ano: XIV - Edição: 4.962

A tragédia de Petrópolis tem culpados | ERIC NEPOMUCENO

(Foto: Reprodução/ TV Globo)

O que estamos vendo não é, ao contrário do que dizem os incautos ou os ignorantes ou os cúmplices, um desastre causado pela fúria da natureza

17 de fevereiro de 2022

Eric Nepomuceno é jornalista e escritor

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Tenho desde sempre uma forte ligação com Petrópolis. A família de minha avó paterna, Laura de Oliveira Xavier, é de lá. Trago da primeira infância algumas faíscas de memória, todas felizes.

Há exatos vinte anos e meio tenho uma casa no distrito de Araras, um tanto distante do centro, onde passo metade da semana e me sinto especialmente abrigado.

Faço esse relato para explicar que a tragédia vivida pela bela cidade me dói de maneira especial. E, ao mesmo tempo, reforça a minha mais profunda indignação.

Até o momento em que escrevo são 106 mortos e ao menos 134 desaparecidos. É a pior tragédia da história da cidade de Petrópolis. Sim, sim, há pouco mais de dez anos houve tragédia ainda maior, com mais de 900 mortos, mas em todo o município, que é extenso. Na cidade propriamente dita foram 74.

As imagens que circulam intensamente desde o mesmo entardecer da terça-feira são chocantes e dolorosas. Agora mesmo acabo de ver a filmagem de várias pessoas tentando desesperadamente sair de dois ônibus mergulhados na correnteza de lama e sendo levadas pelas águas. Terão sobrevivido?

Na quarta-feira vi o desespero de uma jovem mãe tentando, com uma enxada, resgatar a filha que estava soterrada. Não conseguiu. O corpo morto da menina foi encontrado no dia seguinte.

Por todos os lados circulam pedidos de doações. Petrópolis precisa de comida, de água, de roupas e colchões para quem perdeu tudo.

Pois precisa disso e de muito mais. O que estamos vendo não é, ao contrário do que dizem os incautos ou os ignorantes ou os cúmplices, um desastre causado pela fúria da natureza.

Não, não: como bem disse há décadas o escritor uruguaio Eduardo Galeano, a natureza não se enfurece. Ela apenas reage ao que fazem com ela.

O que estamos vendo em Petrópolis é o resultado do que se vê Brasil afora: a ocupação desenfreada de áreas de risco, de zonas abandonadas, e na imensíssima maioria dos casos essa ocupação é feita pelos pobres ou miseráveis.

É o resultado das brutais desigualdades sociais que encobrem este país de vergonha e miséria.

E também o resultado da incompetência pública dos governantes. Sim, sim: de prefeitos, governadores, legisladores e dos presidentes. Da falta radical de políticas de preservação, de urbanização e principalmente de moradias populares.

Se algo se avançou nessa direção durante um tempo, hoje o que temos é puro retrocesso.

Em 2017 um estudo da Defesa Civil alertou que na cidade de Petrópolis havia quinze mil imóveis em áreas de risco de destruição – leia-se: alto risco. E nada foi feito.

Ou melhor, uma coisa o governador bolsonarista Claudio Castro fez: no ano passado, cortou para pouco menos da metade o dinheiro previsto em orçamento para programas de prevenção de riscos e resposta a desastres ambientais no estado do Rio de Janeiro. O resto teve outro destino.

Não é preciso ser urbanista ou especialista para entender o que eles todos dizem: a falta de uma política habitacional destinada às camadas mais pobres da população é a verdadeira causa das invasões desenfreadas de zonas de risco, tanto terras públicas como abandonadas pelos donos.

E enquanto nada for feito, novas tragédias vão acontecer.

Não, não, a culpa não é da natureza. A culpa é da injustiça social escandalosa de nosso país e da irresponsabilidade de nossos governantes.

Brasil 247

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