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Boni, o publicitário: a TV aberta é um bem público

“O importante é que a televisão aberta – que tem a concessão de usar o espectro, que é um bem público – tenha consciência de sua  responsabilidade social, que se preocupe sempre em elevar o nível de suas atrações e não insista em sublocar espaços, o que é ilegal. E que, além do entretenimento, informe e preste serviços à comunidade, à nação. Assim, com certeza, a TV aberta ainda terá pela frente um longo futuro.”

Assim, na pág. 459, chega ao fim “O livro do Boni”, Casa da Palavra, Rio, 2011.

Este ansioso blogueiro concluiu nesta madrugada a leitura do Boni.

Durante algum tempo, quando era correspondente em Nova York, este ansioso blogueiro conviveu com o Boni.

Ele estava no fim do caminho de 31 anos na Globo, perseguido pelo Roberto Irineu, o filho mais velho do Roberto Marinho e sua agente exterminadora, a Marluce Dias da Silva, que o Boni não cita no livro:

“A minha saída, em 1998, se deu porque novas pessoas entraram na Globo e o baixo grau de conhecimento delas em relação a televisão era assustador… Não dava para conviver com elas. Era enfarto na certa.”

Roberto Irineu rompeu com o Boni, porque o Boni disse ao pai que a TeleMontercarlo do Roberto Irineu ia dar com os burros n’água.

E deu.

O Berlusconi comeu o Roberto Irineu com farofa.

O Boni passou a ir mais a Nova York e convidava a mim e ao Paulo Francis para almoçar no Spark’s, um restaurante de carnes excepcional

Um dia eu, no outro o Francis.

Porque o Boni sabia que eu detestava o Francis (devia ser recíproco).

(Aliás, o Boni conta no livro que o Roberto Marinho aceitou contratar o Francis, só porque o Boni assegurou que as idéias do Francis tinham mudado. O Francis, que foi trotskista, é o patrono dos neolibelês (*) ).

Nessas conversas – eu só comia peixe -, aprendi muito com o Boni.

E ouvi histórias do arco da velha – nada como um Vega Sicilia …

Essas histórias serão devidamente recontadas quando sair “O livro do PHA” …

Como será reproduzida a conversa que tive com o Armando Nogueira, na véspera de ser defenestrado pelo Dr Roberto.

O Dr Roberto deu a cadeira ao Alberico de Souza Cruz, que comandou a célebre edição do jornal nacional para dar a vitória ao Collor, contra o Lula.

O Boni não conta essa história direito.

Nem a da Proconsult ou da campanha das Diretas, porque ele, na verdade, não metia a mão na massa no jornalismo.

Ele cuidava da qualidade, do padrão Boni de qualidade, também no jornalismo.

Mas, do conteúdo, não.

Nunca soube de o Boni “pedir” ou “mandar” no noticiário da Globo.

O livro do Boni não é só importante para quem goste de televisão, para quem é profissional de televisão.

O que mais me interessou no livro do Boni foi entender a cabeça do Boni – ou seja, como foi concebida a televisão comercial, aberta, no Brasil.

E cheguei a uma conclusão.

Boni começou a vida como publicitário e é até hoje.

Ele entendeu que a televisão aberta numa sociedade capitalista é um veículo de publicidade.

Até aí, morreu o Neves, diria minha santa mãe.

Calma, amigo navegante.

O publicitário Boni levou para a televisão os pontos cardeais da linguagem publicitária.

Do comercial de televisão, arte que o Brasil domina como poucos.

A obsessiva e saudável preocupação com a forma, com a qualidade.

A televisão do Boni tinha que ser o ambiente mais amigável, mais adequado para abrigar o comercial de televisão

O Boni não podia permitir que um comercial do Duailibi, do Washington, do Nizan entrasse no meio de uma tevê brega, suja, sem áudio, sem iluminação.

Este ansioso blogueiro assistiu em Nova York ao Boni derrubar uma proposta de um quadro de humor para o Fantástico aos três segundos de exibição do piloto: “isso lá é iluminação que se apresente ?”

Áudio.

Se o áudio era ruim, ele derrubava no ato.

É bom não esquecer – e o Boni conta isso com detalhes até demais – frequentou agencias de publicidade nos Estados Unidos, no início da carreira.

Entrou na televisão, primeiro, como profissional de publicidade para fazer programas que as agências produziam em horário comprado.

A tevê aberta era o meio.

A publicidade, a mensagem – como diria aquele canadense, Marshall McLuhan, que àquela altura, se citava muito nas agencias de publicidade.

O mais importante, porém, segundo este ansioso blogueiro, é o ritmo do Boni – ou seja, o ritmo do comercial de tevê.

O Boni diz que televisão é hábito e ritmo.

O Armando Nogueira um dia me explicou por que não deixava as matérias do jornalismo se arrastar: porque o minuto do Boni tinha trinta segundos.

O comercial de tevê tem trinta segundos.

A tevê do Boni tem ritmo frenético, como a fala do Boni.

Da novela ao Chacrinha.

Por isso que ele não gostava de futebol na televisão: por causa do ritmo.

Por isso, conta-se, que, um dia, ele quase cortou o Hino Nacional antes de uma transmissão de jogo da seleção.

O ritmo.

Por isso ele não queria o programa do Jô Soares (ele não confessa isso no livro).

Porque é chato e, como me dizia em Nova York, “o Brasil não tem elenco para um talk-show diário”.

O Roberto Irineu e a Marluce contrataram o Jô para diminuir o Boni.

(Que pena que o Boni não cite a Miriam Leitão …)

Pois, não é que o publicitário José Bonifácio de Oliveira Sobrinho  releva  o papel social da tevê aberta ?

A responsabilidade social da tevê aberta ?

E quando o Geneton Moraes, numa de suas excelentes entrevistas, perguntou a ele o que era mais importante na tevê, se o entretenimento ou o jornalismo, o Boni respondeu na hora: o jornalismo !

O serviço público !
Alô, alô, Ministro Bernardo !

Paulo Henrique Amorim

(*) “Neolibelê” é uma singela homenagem deste ansioso blogueiro aos neoliberais brasileiros. Ao mesmo tempo, um reconhecimento sincero ao papel que a “Libelu” trotskista desempenhou na formação de quadros conservadores (e golpistas) de inigualável tenacidade. A Urubóloga Miriam Leitão é o maior expoente brasileiro da Teologia Neolibelê.

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